a última bala

atrás das pálpebras
o manto azulado cobre todas as coisas
uma respiração pesada e lenta
no peito arquejante
encontra protecção nocturna no tecido fresco
sobre os nervos sobre a pele
estranhos ruídos polulam o isolamento
cansámo-nos de tudo e sobretudo da pressa
cativos da tentação
domesticados por violentas fantasias de possessão
as almas sangram para a boca
escorrem abandonados os troncos guerreiros em repouso
as praças onde nos conhecemos são invadidas pelo vento
e é no relógio que se esconde a morte

esquece-me
o suficiente para impedir um regresso pois
não renasceremos nos círculos
não renasceremos na perfeição
algo terá de acontecer
enquanto descansamos
fabriquemos uma nova identidade
um novo corpo
contaminando a felicidade:
lama que sufoca a garganta
e impede o grito final

que as putas dancem connosco
e os guardiões que bebam
que as crianças sejam libertadas
os poderosos enviados para o cadafalso
desnudem os monges
enquanto coloco uma última bala na câmara
puxando o cão para
desvendar a fina teia que cimenta a modernidade

comei do chão
rezai aos demónios
amai os degenerados
ante o despertar da amena quimera concupiscente
no pior dos cenários
haverá a certeza de que alcançámos uma fugaz satisfação

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contrição em lisboa

uma palavra torna-se grito no silêncio do teu peito
a luxúria empurra-nos para a deriva da madrugada
fugaz visão de corpos nas
raparigas que meneiam as suas cabeças
ondulando longos cabelos
carne—–interrompida—-pelo couro

nunca tivemos tanto tempo como hoje
momento único e finito antes da viagem
todas as labirínticas ruelas preenchidas
como um louco desfile em direcção ao mar
matéria deslizando como velhas serpentes
desejo irrompe na ponta dos dedos
jovens amantes reencontram-se na imortalidade do leito
os velhos apagam-se na rotina
embuscada na encruzilhada
antecipando o conforto do sono

hoje ofereço orações
pensamentos provocantes
sonhos de coxas escancaradas como portões gregos
sorridentes telhados sobre o tejo
de onde a luz fere este canto
abrigado da guerra e das catástrofes
palácios e monumentos decadentes
como a memória do povo
estrada infecta de ódio
recolhemo-nos ao quarto
e que tenho para te oferecer
senão toda a violência do mundo?

a nudez é para exibir aos céus
e nós fazemo-lo desafiadoramente
se nos aborrecermos
podemos sempre fustigar os escravos
eles agradecerão a carícia
e mais um vislumbre do poder

lisboa ainda irradia pureza
e na sua estranha solidão de pedra
oferece novas tentações
clamo mais punição mais dor
caminho para a contriçãosiza_11

que morram todos

o tempo reclama-nos e virá por nós
não há já quem nos possa salvar
destruímos o corpo no caos do toque e dos beijos
mutilando-nos um ao outro na ignorância

alguém grita em deleite na imortalidade da noite
hoje seremos os Mestres Do Sono
colo-me à esperança do desejo
em mais uma viagem pelo inferno
encontramos falsa segurança nos gárgulas
desconhecidos devoram-nos com os olhos
nas ruas que se tornaram perigosas quando as abandonaste

terminem o silêncio e com ele o significado
brota das bocas livres a irracionalidade da natureza
como ervas daninhas como menstruação
não nos amemos mais emparedados nas trevas
soltem a besta
deixem-na caminhar livre e pura
passar a mão pelos seus cabelos de anjo em contraluz

nas caves concentram-se as guerrilhas
congeminando a falência das estruturas
latejam as veias em excitação
que se experimente a fome e a guerra
não seremos mais crianças, mas homens calejados pelo sacrifício da conquista

quando o relógio da torre bate as horas
poderia haver uma explosão

QUE MORRAM TODOS! deus saberá reconhecer os seus

o fim é apenas o momento mais doce alguma vez saboreado
rompemos pela ténue matéria em espasmos até ao firmamento
iluminaremos então as fronteiras da carne

no olho da tempestade

libertamo-nos da roupa dançando ao longo da estrada brutal
infectada de visões do sangue no passado
sapos coaxam ferindo o silêncio da noite
o homem no corredor do hospital tosse
ecoando nos frios corredores

eis que o neon rasga as trevas como a redenção
incendeia-se a vida

uma rapariga observa da varanda
cabelo a contraluz lábios brilhantes e peito descoberto
movimento na avenida
carros aceleram até à beira da desintegração
quando um desconhecido acende um cigarro
iluminando a sua face endurecida

como uma velha amante
a cidade seduz-nos
sonhamos que ela nos possui
e a neblina galga o mar
desaparecendo para além das montanhas
quem emprenhou as gigantescas estruturas
forjou o metal e trabalhou o vidro?

é a tua suavidade que atiça a selvajaria do mundo
combustível da crueldade
entretanto a loucura propaga-se nas mãos dos solitários
que se tocam, ensandecendo
será por já não reconhecermos a inércia?

FICA!

em breve tudo cessará
a tempestade será engolida pela calma
retornaremos então ao primitivo mundo
ao misticismo que explica a mecânica de todas as coisas
aprenderemos a gratidão
acolhendo a perfeição no incêndio dos arautos da decadência

para esquecer o amanhã

arda o passado para esquecer o amanhã

morremos na vasta podridão da cidade anónima
esquecendo o corpo nas trevas do inverno
contemplando pausadamente o poder encerrado nas figuras mágicas
num movimento em direcção ao desejo
carne cresceeeeeeeeeeente
movimento es-tá-ti-co

embarcamos na excursão amnésica para esquecer o amanhã
salvação na embriaguez
crianças que pintam as paredes com o sangue da esperança
excesso na noite
o trato frio dos ausentes rouba-nos o sono
deixando-nos entregues ao sono e à miséria
sem direcção
na floresta negra assombrados pela solidão sem memória
sacrificamos os irmãos e as mulheres

antigas famílias ardendo nas suas mansões seculares
animais presos no estábulo envoltos na cortina de fumo
colheitas transformadas em cinza
o oceano persegue-nos
procura engolir-nos para esquecer o amanhã

hipnótico silêncio das musas
e os guerreiros sorridentes
encontram-se no homicídio
enquanto líderes corrompem-se nas salas douradas
os esquecidos apanham beatas com os dedos negros
protegendo as suas magras posses

oh putas! provoquem-nos e amem-nos nas vossas mini-saias de cabedal
que os lobos uivam cercando-nos já moribundos
para esquecer o amanhã
o homem que ama teme ser aprisionado
sucumbe à matéria

não queremos salvação
queremos transportar a história para além dos limites
para esquecer o amanhã

retaliação

inconsciente nas veias da auto-estrada
descobrindo países fundando nações
inerte o asfalto que morre sob o desfilar suave das máquinas
morre também o sol atrás das colinas
enquanto os condenados se arrastam de volta para o deserto
e as crianças prestam vassalagem aos astros

fria a terra que nos devora
quando as trevas nos recebem como um longo braço de deus
há sempre sangue a manchar o chão
assassinos que uivam
passos pesados no sono dos justos
circundando a sombra maléfica das árvores
os desaparecidos e a sua última esperança
os deserdados e a sua voz inaudível

os jovens dançam alegres e embriagados
com gestos enlouquecidos e luxuriosos
não existe já espaço para o silêncio
estupraram os restos dos sonhos
por isso
RETALIAREMOS!
o sangue correrá esta noite
mas antes amar-nos-emos
pois a viagem nunca terminará
a menos que um de nós tenha ousadia de abraçar o crime

alguém fuma num bar
enquanto o conforto do néon anuncia abrigo
soa a meia-noite no relógio da torre
atiçando o desejo dos esquecidos
inflamando paixões nos ventres desprezados
é o suficiente para injectar vida nas chamas moribundas
da hipnotizada multidão
comandando-os como uma imperatriz

a vingança brotará de todos os fracassados

Michelangelo_Caravaggio_071

soltem os sobreviventes

a calçada mergulha na escuridão
corpos que se enrolam na noite sob o imparável canto da maquinaria
madrugada vencida
labirinto de lodo
rei deposto
os homens fortes não dormem

enterra-se a história da nossa cidade
sucedendo-se infinitamente
o abandono que te invoca implorando um abraço
páginas de livros por ler ardem no vazio
encontras-te intocável e incestuosa numa varanda
contemplando o rumor com o desdém de uma imperatriz europeia
carros que cortam o ar com o frio metal
como lâminas abundantes
reluzem os reclames reluzem os ecrãs
atraindo-nos como se fossem a esperança

continuando nunca conheceremos o deserto
continuando nunca conheceremos o abismo
continuando nunca conheceremos a alvorada

alguns descontentes formam um exército
no sonho refém de lutar por um mito há muito arruinado
revolta-se a natureza clamando o seu preço
regressaremos ao útero
regressaremos ao túmulo
mas regressaremos

sentados na praça
vítimas da intempérie
optimistas e rejuvenescidos
aguardamos a febre dos amotinados
despojem a população de todos os bens!
da pele e da carne
até nada sobrar além do asco da alma
frente ao espeho
sem mestres nem lacaios sem desculpas
pura nudez crua bruta e violenta

soltem então os sobreviventes