a última bala

atrás das pálpebras
o manto azulado cobre todas as coisas
uma respiração pesada e lenta
no peito arquejante
encontra protecção nocturna no tecido fresco
sobre os nervos sobre a pele
estranhos ruídos polulam o isolamento
cansámo-nos de tudo e sobretudo da pressa
cativos da tentação
domesticados por violentas fantasias de possessão
as almas sangram para a boca
escorrem abandonados os troncos guerreiros em repouso
as praças onde nos conhecemos são invadidas pelo vento
e é no relógio que se esconde a morte

esquece-me
o suficiente para impedir um regresso pois
não renasceremos nos círculos
não renasceremos na perfeição
algo terá de acontecer
enquanto descansamos
fabriquemos uma nova identidade
um novo corpo
contaminando a felicidade:
lama que sufoca a garganta
e impede o grito final

que as putas dancem connosco
e os guardiões que bebam
que as crianças sejam libertadas
os poderosos enviados para o cadafalso
desnudem os monges
enquanto coloco uma última bala na câmara
puxando o cão para
desvendar a fina teia que cimenta a modernidade

comei do chão
rezai aos demónios
amai os degenerados
ante o despertar da amena quimera concupiscente
no pior dos cenários
haverá a certeza de que alcançámos uma fugaz satisfação

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sacrifício

espero ainda na calma do quarto
ocasionalmente varrido pela luz
partiste para o desconhecido e a cidade emudeceu
como uma desesperada legião de canibais
perante a perda da rainha

desço até à cabine sob a égide
da moderna loucura pela vitória
a metrópole como tentáculos maquinais
dissolvendo a alma em electricidade
lâmina que acaricia nossas gargantas
e quem consegue resistir a tal amor?

sustendo a respiração por algum ídolo
incenso mirra e sândalo
esta é a nova cruzada
ainda a mesma cruzada
saboreando infelicidade nos trajos andrajosos
nos cabelos desalinhados e sujos
ostento traição como um troféu
enquanto alguns devotos choram ausência e solidão

homicídios ao longo das estradas nacionais
banhadas pelo intermitente azul das sirenes
estamos vivos por isso celebremos
degustando a morte dos estranhos
contemplando o futuro sob o firmamento
farejar o sangue sobre o asfalto
acariciemos os órgãos expostos
aplaudamos a carne putrefacta
nada diz vida como um pequeno flirt com o fim
e mais tarde, depois de tudo esquecido
deleitarmo-nos na pequenez da ordenação

quem falará primeiro numa manhã de domingo?
tragédias nas páginas dos jornais
e nós tentando controlar o mundo
pela palavra

na frio exílio cru e nocturno
quem é bravo o suficiente
para sacrificar a pele aos seus demónios?

sejamos sanguinários

que a tarde termine
assim os corpos fiquem mais leves
e as pequenas criaturas invadam a ilusão da serenidade

que a noite comece
para o tédio dar lugar à nudez
sofrer pelo nosso entusiasmo
lento reencontro dos companheiros de trincheira
tempo finalmente recuperado em palavras sem direcção
toque sem objectivo
e o suave calor do teu bafo na minha pele
gentil tilintar dos copos & enrolar + um cigarro
como se fosse uma lenta marcha

quando conseguiremos esquecer que isto tem um fim?

a luz inextinguível encontramo-la nas trevas
com breves resquícios de imortalidade todos se amam
fecunda liberdade da escravidão
nem o cansaço nos parará agora!

não temas o passo seguinte
não temas a fome
não temas o poder
somos o farol da cidade
e queremos sempre mais
sem conseguir morrer,
não temas o amanhã
sempre o conseguimos derrotar
não temas a brutal conquista dos minutos
pois nem o próprio deus nos parará agora

que o alvorecer nunca nos alcance
sinto-o irromper no alucinante palpitar do peito
agora que entrámos no demente e nocturno espasmo
sejamos sanguinários!

espremer tempestuosamente este mundo por tudo o que tiver ainda para dar
e que ninguém saia sem levar tudo aquilo a que tem direito