contrição em lisboa

uma palavra torna-se grito no silêncio do teu peito
a luxúria empurra-nos para a deriva da madrugada
fugaz visão de corpos nas
raparigas que meneiam as suas cabeças
ondulando longos cabelos
carne—–interrompida—-pelo couro

nunca tivemos tanto tempo como hoje
momento único e finito antes da viagem
todas as labirínticas ruelas preenchidas
como um louco desfile em direcção ao mar
matéria deslizando como velhas serpentes
desejo irrompe na ponta dos dedos
jovens amantes reencontram-se na imortalidade do leito
os velhos apagam-se na rotina
embuscada na encruzilhada
antecipando o conforto do sono

hoje ofereço orações
pensamentos provocantes
sonhos de coxas escancaradas como portões gregos
sorridentes telhados sobre o tejo
de onde a luz fere este canto
abrigado da guerra e das catástrofes
palácios e monumentos decadentes
como a memória do povo
estrada infecta de ódio
recolhemo-nos ao quarto
e que tenho para te oferecer
senão toda a violência do mundo?

a nudez é para exibir aos céus
e nós fazemo-lo desafiadoramente
se nos aborrecermos
podemos sempre fustigar os escravos
eles agradecerão a carícia
e mais um vislumbre do poder

lisboa ainda irradia pureza
e na sua estranha solidão de pedra
oferece novas tentações
clamo mais punição mais dor
caminho para a contriçãosiza_11

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sacrifício

espero ainda na calma do quarto
ocasionalmente varrido pela luz
partiste para o desconhecido e a cidade emudeceu
como uma desesperada legião de canibais
perante a perda da rainha

desço até à cabine sob a égide
da moderna loucura pela vitória
a metrópole como tentáculos maquinais
dissolvendo a alma em electricidade
lâmina que acaricia nossas gargantas
e quem consegue resistir a tal amor?

sustendo a respiração por algum ídolo
incenso mirra e sândalo
esta é a nova cruzada
ainda a mesma cruzada
saboreando infelicidade nos trajos andrajosos
nos cabelos desalinhados e sujos
ostento traição como um troféu
enquanto alguns devotos choram ausência e solidão

homicídios ao longo das estradas nacionais
banhadas pelo intermitente azul das sirenes
estamos vivos por isso celebremos
degustando a morte dos estranhos
contemplando o futuro sob o firmamento
farejar o sangue sobre o asfalto
acariciemos os órgãos expostos
aplaudamos a carne putrefacta
nada diz vida como um pequeno flirt com o fim
e mais tarde, depois de tudo esquecido
deleitarmo-nos na pequenez da ordenação

quem falará primeiro numa manhã de domingo?
tragédias nas páginas dos jornais
e nós tentando controlar o mundo
pela palavra

na frio exílio cru e nocturno
quem é bravo o suficiente
para sacrificar a pele aos seus demónios?

então o deserto

subjugados pelas trevas
faróis flutuam entre o denso fumo
calçada reluzente
solidão gritante nos passos
jovens oferecem-se exibindo a carne
promovem o desejo desenfreado de fraqueza
casas antigas ameaçam ruir com a memória
tenho a certeza de que encontraríamos a excelência se fossemos até ao fundo

aprender a verdadeira arte do amor na obscuridade
sonhos de possessão no deleite feminino
odor adocicado de perfume barato que enche o peito de apetite
as forças da natureza incentivam corpos experimentados
monumento à ira dos deuses

avenidas surpreendentemente povoadas
o couro reluzindo pela iluminação pública
fachadas alegremente preenchidas
por sugestões de psicótica nudez
e toda uma cultura de repressão
afundando-se nos sensuais gestos e gemidos da luxúria

cigarros acesos como ameaças
lançam potentes interrogações
na direcção dos tementes operários e executivos que
observam o espectáculo com falso desinteresse
a pele curtida e dura grita por ser dominada
como o arcanjo que se dilacera pelo comandante supremo

portais surgem nos becos sujos e negros
camas mergulhadas na sombra
mofo para acolher a celebração
uma onda de êxtase penetra os ventres que incham de sangue e ruína

a cavalgada cresce alonga-se e transforma-se finalmente em crepúsculo
e o climax surge no acto breve de violência espontânea

depois o abandono e então sim

o deserto

se tudo falhar

homens de costas flageladas trespassam fronteiras
cavalgam vila dentro
sob os olhos das mulheres espectantes
deus deserdou esta terra
voluntariando-a às garras da fome e da doença
há quem tenha saudade da escravidão
essa segurança intemporal do dever
há quem prefira a morte honrada
na suave latitude tropical

estrelas que se extinguiram
anjos já não protegem os fieis
crianças sangram abundantemente
esposas presas de forasteiros
um dia chegam os navegadores
fustigados pela tempestade
carregando o desespero
e os fracos rezam

rejeitámos a salvação
começaremos a travessia ao anoitecer
embalados no abraço das trevas
protegidos pelos demónios nocturnos
rasgaremos os céus na sua asa

reunam os mais fortes entre nós
para liderar a demanda
tudo queimará no nosso caminho
despedaçam-se os amantes e as famílias
na imprevisibilidade do reencontro
acendam a fogueira, juntem as provisões
celebração hoje-luta amanhã
quando honraremos o desconhecido

se tudo falhar
chicoteiem os traidores e os não-crentes
a vitória chegará pela mão crentes e devotos
sem receio do imprevisto

se tudo falhar
que os sobreviventes recordem a história pela carne

jugular

na hora moribunda da madrugada o sol revelar-se-á para o mundo novo
despertamos insatisfeitos ainda com tanto para conquistar
nada voltará a ter este sabor novamente

o ar frio sacode-nos ainda da noite passada
foi destruído o império do sonho, mas como?
derrubando a fantasia pela a cruel espada da realidade,
esquece-te da tua casa do teu quarto apertado
vamos!

acende-se um cigarro quando os tímidos raios de sol levitam
um cacho de cabelo ondulando na brisa
e eis que os operários e as famílias furtam breves segundos à marcha totalitária do relógio
para sacrificá-los à fuga-cidade dos sentidos:
“sabem que sois mais do que este corpo”

queremos as promessas de alegria concretizadas
queremos o vaticínio do prazer atingido
caiam os monarcas que nos contemplam das torres de marfim
sucumbam os generais do asfalto que nos guiam para o lento cadafalso

há uma ideia a pulsar nestas frágeis veias
tornámo-nos estranhos distantes da beleza
desfilando ordenadamente em volta dos modernos monumentos
tantos dias perdidos no labirinto do desejo
recordem as profecias dos indigentes
se o corpo dói é porque vives
abraça a mágoa que traz consigo a pureza
renega os velhos deuses sanguinários e vingativos
não temamos preço nenhum-pagá-lo-emos seja qual for

haverá amanhã outro momento assim?
alguns de nós poderão não sobreviver para o celebrar
então é chegado o momento de nos apoderarmos do destino pela jugular
extorquindo-lhe todo o âmago da existência
bebamos juntos do cálice da vitória
para que o sacrifício dos antepassados não tenha sido em vão

que morram todos

o tempo reclama-nos e virá por nós
não há já quem nos possa salvar
destruímos o corpo no caos do toque e dos beijos
mutilando-nos um ao outro na ignorância

alguém grita em deleite na imortalidade da noite
hoje seremos os Mestres Do Sono
colo-me à esperança do desejo
em mais uma viagem pelo inferno
encontramos falsa segurança nos gárgulas
desconhecidos devoram-nos com os olhos
nas ruas que se tornaram perigosas quando as abandonaste

terminem o silêncio e com ele o significado
brota das bocas livres a irracionalidade da natureza
como ervas daninhas como menstruação
não nos amemos mais emparedados nas trevas
soltem a besta
deixem-na caminhar livre e pura
passar a mão pelos seus cabelos de anjo em contraluz

nas caves concentram-se as guerrilhas
congeminando a falência das estruturas
latejam as veias em excitação
que se experimente a fome e a guerra
não seremos mais crianças, mas homens calejados pelo sacrifício da conquista

quando o relógio da torre bate as horas
poderia haver uma explosão

QUE MORRAM TODOS! deus saberá reconhecer os seus

o fim é apenas o momento mais doce alguma vez saboreado
rompemos pela ténue matéria em espasmos até ao firmamento
iluminaremos então as fronteiras da carne

no olho da tempestade

libertamo-nos da roupa dançando ao longo da estrada brutal
infectada de visões do sangue no passado
sapos coaxam ferindo o silêncio da noite
o homem no corredor do hospital tosse
ecoando nos frios corredores

eis que o neon rasga as trevas como a redenção
incendeia-se a vida

uma rapariga observa da varanda
cabelo a contraluz lábios brilhantes e peito descoberto
movimento na avenida
carros aceleram até à beira da desintegração
quando um desconhecido acende um cigarro
iluminando a sua face endurecida

como uma velha amante
a cidade seduz-nos
sonhamos que ela nos possui
e a neblina galga o mar
desaparecendo para além das montanhas
quem emprenhou as gigantescas estruturas
forjou o metal e trabalhou o vidro?

é a tua suavidade que atiça a selvajaria do mundo
combustível da crueldade
entretanto a loucura propaga-se nas mãos dos solitários
que se tocam, ensandecendo
será por já não reconhecermos a inércia?

FICA!

em breve tudo cessará
a tempestade será engolida pela calma
retornaremos então ao primitivo mundo
ao misticismo que explica a mecânica de todas as coisas
aprenderemos a gratidão
acolhendo a perfeição no incêndio dos arautos da decadência