se tudo falhar

homens de costas flageladas trespassam fronteiras
cavalgam vila dentro
sob os olhos das mulheres espectantes
deus deserdou esta terra
voluntariando-a às garras da fome e da doença
há quem tenha saudade da escravidão
essa segurança intemporal do dever
há quem prefira a morte honrada
na suave latitude tropical

estrelas que se extinguiram
anjos já não protegem os fieis
crianças sangram abundantemente
esposas presas de forasteiros
um dia chegam os navegadores
fustigados pela tempestade
carregando o desespero
e os fracos rezam

rejeitámos a salvação
começaremos a travessia ao anoitecer
embalados no abraço das trevas
protegidos pelos demónios nocturnos
rasgaremos os céus na sua asa

reunam os mais fortes entre nós
para liderar a demanda
tudo queimará no nosso caminho
despedaçam-se os amantes e as famílias
na imprevisibilidade do reencontro
acendam a fogueira, juntem as provisões
celebração hoje-luta amanhã
quando honraremos o desconhecido

se tudo falhar
chicoteiem os traidores e os não-crentes
a vitória chegará pela mão crentes e devotos
sem receio do imprevisto

se tudo falhar
que os sobreviventes recordem a história pela carne

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jugular

na hora moribunda da madrugada o sol revelar-se-á para o mundo novo
despertamos insatisfeitos ainda com tanto para conquistar
nada voltará a ter este sabor novamente

o ar frio sacode-nos ainda da noite passada
foi destruído o império do sonho, mas como?
derrubando a fantasia pela a cruel espada da realidade,
esquece-te da tua casa do teu quarto apertado
vamos!

acende-se um cigarro quando os tímidos raios de sol levitam
um cacho de cabelo ondulando na brisa
e eis que os operários e as famílias furtam breves segundos à marcha totalitária do relógio
para sacrificá-los à fuga-cidade dos sentidos:
“sabem que sois mais do que este corpo”

queremos as promessas de alegria concretizadas
queremos o vaticínio do prazer atingido
caiam os monarcas que nos contemplam das torres de marfim
sucumbam os generais do asfalto que nos guiam para o lento cadafalso

há uma ideia a pulsar nestas frágeis veias
tornámo-nos estranhos distantes da beleza
desfilando ordenadamente em volta dos modernos monumentos
tantos dias perdidos no labirinto do desejo
recordem as profecias dos indigentes
se o corpo dói é porque vives
abraça a mágoa que traz consigo a pureza
renega os velhos deuses sanguinários e vingativos
não temamos preço nenhum-pagá-lo-emos seja qual for

haverá amanhã outro momento assim?
alguns de nós poderão não sobreviver para o celebrar
então é chegado o momento de nos apoderarmos do destino pela jugular
extorquindo-lhe todo o âmago da existência
bebamos juntos do cálice da vitória
para que o sacrifício dos antepassados não tenha sido em vão

que morram todos

o tempo reclama-nos e virá por nós
não há já quem nos possa salvar
destruímos o corpo no caos do toque e dos beijos
mutilando-nos um ao outro na ignorância

alguém grita em deleite na imortalidade da noite
hoje seremos os Mestres Do Sono
colo-me à esperança do desejo
em mais uma viagem pelo inferno
encontramos falsa segurança nos gárgulas
desconhecidos devoram-nos com os olhos
nas ruas que se tornaram perigosas quando as abandonaste

terminem o silêncio e com ele o significado
brota das bocas livres a irracionalidade da natureza
como ervas daninhas como menstruação
não nos amemos mais emparedados nas trevas
soltem a besta
deixem-na caminhar livre e pura
passar a mão pelos seus cabelos de anjo em contraluz

nas caves concentram-se as guerrilhas
congeminando a falência das estruturas
latejam as veias em excitação
que se experimente a fome e a guerra
não seremos mais crianças, mas homens calejados pelo sacrifício da conquista

quando o relógio da torre bate as horas
poderia haver uma explosão

QUE MORRAM TODOS! deus saberá reconhecer os seus

o fim é apenas o momento mais doce alguma vez saboreado
rompemos pela ténue matéria em espasmos até ao firmamento
iluminaremos então as fronteiras da carne

no olho da tempestade

libertamo-nos da roupa dançando ao longo da estrada brutal
infectada de visões do sangue no passado
sapos coaxam ferindo o silêncio da noite
o homem no corredor do hospital tosse
ecoando nos frios corredores

eis que o neon rasga as trevas como a redenção
incendeia-se a vida

uma rapariga observa da varanda
cabelo a contraluz lábios brilhantes e peito descoberto
movimento na avenida
carros aceleram até à beira da desintegração
quando um desconhecido acende um cigarro
iluminando a sua face endurecida

como uma velha amante
a cidade seduz-nos
sonhamos que ela nos possui
e a neblina galga o mar
desaparecendo para além das montanhas
quem emprenhou as gigantescas estruturas
forjou o metal e trabalhou o vidro?

é a tua suavidade que atiça a selvajaria do mundo
combustível da crueldade
entretanto a loucura propaga-se nas mãos dos solitários
que se tocam, ensandecendo
será por já não reconhecermos a inércia?

FICA!

em breve tudo cessará
a tempestade será engolida pela calma
retornaremos então ao primitivo mundo
ao misticismo que explica a mecânica de todas as coisas
aprenderemos a gratidão
acolhendo a perfeição no incêndio dos arautos da decadência

para esquecer o amanhã

arda o passado para esquecer o amanhã

morremos na vasta podridão da cidade anónima
esquecendo o corpo nas trevas do inverno
contemplando pausadamente o poder encerrado nas figuras mágicas
num movimento em direcção ao desejo
carne cresceeeeeeeeeeente
movimento es-tá-ti-co

embarcamos na excursão amnésica para esquecer o amanhã
salvação na embriaguez
crianças que pintam as paredes com o sangue da esperança
excesso na noite
o trato frio dos ausentes rouba-nos o sono
deixando-nos entregues ao sono e à miséria
sem direcção
na floresta negra assombrados pela solidão sem memória
sacrificamos os irmãos e as mulheres

antigas famílias ardendo nas suas mansões seculares
animais presos no estábulo envoltos na cortina de fumo
colheitas transformadas em cinza
o oceano persegue-nos
procura engolir-nos para esquecer o amanhã

hipnótico silêncio das musas
e os guerreiros sorridentes
encontram-se no homicídio
enquanto líderes corrompem-se nas salas douradas
os esquecidos apanham beatas com os dedos negros
protegendo as suas magras posses

oh putas! provoquem-nos e amem-nos nas vossas mini-saias de cabedal
que os lobos uivam cercando-nos já moribundos
para esquecer o amanhã
o homem que ama teme ser aprisionado
sucumbe à matéria

não queremos salvação
queremos transportar a história para além dos limites
para esquecer o amanhã

este mundo não é suficiente para nós

agora que a realidade fere profundamente
superemos a ilusão do dédalo
não conhecemos nem queremos saída

as praias banhadas pelo luar estão desertas
os palácios frios e distantes nas inalcançáveis colinas
foram as ruas que nos derrotaram
isoladas e enigmáticas
sem corpo para adoração
voltem as costas aos monumentos
assassinem os ídolos
é possível a fuga do labirinto
e algum dia sonhá-la-emos juntos
então as crianças dançarão na luz pura do dia
os homens e as mulheres tornarão a amar-se
somente quebrando todos os limites
encontraremos o êxtase
e a loucura encerrada dentro de cada coração

a nossa juventude resiste ainda
à vossa história petrificada e à vossa moral poeirenta
ambicionamos acção
tomar o mundo nas mãos
num definitivo instante de inspirada embriaguez
começando agora!

abre a primeira garrafa, irmão
darei o gole inaugural
sob o fogo místico que queima no peito
não temas mais as trevas
nelas encontraremos fidelidade
queremos mais do que jamais foi reclamado
mais do que jamais foi experimentado

saboreemos o universo transitório
naufragando na infinidade das dez mil coisas
habitáculo de inconsciência
a verdade libertar-nos-á através das palavras
que são tudo
o que temos para partilhar
bebe o seu canto dos meus lábios fatigados
e alcançaremos o deleite
sinto-o já nas entranhas do espírito

retaliação

inconsciente nas veias da auto-estrada
descobrindo países fundando nações
inerte o asfalto que morre sob o desfilar suave das máquinas
morre também o sol atrás das colinas
enquanto os condenados se arrastam de volta para o deserto
e as crianças prestam vassalagem aos astros

fria a terra que nos devora
quando as trevas nos recebem como um longo braço de deus
há sempre sangue a manchar o chão
assassinos que uivam
passos pesados no sono dos justos
circundando a sombra maléfica das árvores
os desaparecidos e a sua última esperança
os deserdados e a sua voz inaudível

os jovens dançam alegres e embriagados
com gestos enlouquecidos e luxuriosos
não existe já espaço para o silêncio
estupraram os restos dos sonhos
por isso
RETALIAREMOS!
o sangue correrá esta noite
mas antes amar-nos-emos
pois a viagem nunca terminará
a menos que um de nós tenha ousadia de abraçar o crime

alguém fuma num bar
enquanto o conforto do néon anuncia abrigo
soa a meia-noite no relógio da torre
atiçando o desejo dos esquecidos
inflamando paixões nos ventres desprezados
é o suficiente para injectar vida nas chamas moribundas
da hipnotizada multidão
comandando-os como uma imperatriz

a vingança brotará de todos os fracassados

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