este mundo não é suficiente para nós

agora que a realidade fere profundamente
superemos a ilusão do dédalo
não conhecemos nem queremos saída

as praias banhadas pelo luar estão desertas
os palácios frios e distantes nas inalcançáveis colinas
foram as ruas que nos derrotaram
isoladas e enigmáticas
sem corpo para adoração
voltem as costas aos monumentos
assassinem os ídolos
é possível a fuga do labirinto
e algum dia sonhá-la-emos juntos
então as crianças dançarão na luz pura do dia
os homens e as mulheres tornarão a amar-se
somente quebrando todos os limites
encontraremos o êxtase
e a loucura encerrada dentro de cada coração

a nossa juventude resiste ainda
à vossa história petrificada e à vossa moral poeirenta
ambicionamos acção
tomar o mundo nas mãos
num definitivo instante de inspirada embriaguez
começando agora!

abre a primeira garrafa, irmão
darei o gole inaugural
sob o fogo místico que queima no peito
não temas mais as trevas
nelas encontraremos fidelidade
queremos mais do que jamais foi reclamado
mais do que jamais foi experimentado

saboreemos o universo transitório
naufragando na infinidade das dez mil coisas
habitáculo de inconsciência
a verdade libertar-nos-á através das palavras
que são tudo
o que temos para partilhar
bebe o seu canto dos meus lábios fatigados
e alcançaremos o deleite
sinto-o já nas entranhas do espírito

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animais insaciáveis

a madrugada recebe-nos no ventre como crias
memórias de neon na pele
o suave desfile das criaturas que vira costas à cidade em direcção ao sonho do crepúsculo dourado
encontramo-nos
mas há falhas no nosso corpo partilhado
escravos do ecrã
esmorecemos na respiração
as folhas afastam-se dos pés
encerrados na prisão do pensamento que forma labirintos perfeitos

a liberdade do interior que nunca se atinge
SANGRA!
para purificar
abandonando os velhos ídolos
não mais sucumbir ao vício!

a chuva que endeusa as mulheres com que os homens fantasiam, orgulhosos
encostados ao reluzente metal
a lua que cresce, hipnotizando-nos quando entras na noite (…comigo)

somos
animais insaciáveis na procura de vingança
contra o ócio das semanas
QUEREMOS A MORTE!
QUEREMOS O CAOS!

os teus olhos encerram continentes perdidos
chamas que consomem os arquipélagos envelhecidos e viciados
os cabelos agora molhados ondulam
as botas reluzentes desfiladeiro dentro
brilham como almas fantasmagóricas
animadas pelo púrpura do céu

a pureza é somente isto:
o ar gélido na pele nua
o toque quente da carne
a simplicidade de existir
de que só nos lembramos quando tudo está perdido

não seguir mais a multidão
as vitórias não são mais do que a coroa dos deserdados
é a terra o nosso novo lar
habitação sem amarras
até escorrer como um oceano poderoso
AGIGANTAR-NOS-EMOS

Uma engrenagem

a mecânica versão de mim
num céu metalizado
compôs uma ópera muda:
sinfonia da repetição
nasce do nada
morre no caos
tão belo som
jamais
feriu os ouvidos
de princesa alguma
desconhecida
e de olhar-longe
como o teu.

faço a planta do
teu corpo
na minha cabeça
e mil
viaturas percorrem
com um tranquilizante
ruído de motor
a tua estrada feita de
carne,
faço um plano de como
colidir
com o interior do teu acolhimento
quero abrir a minha boca e
comer-degustar-devorar
o teu espírito
foder
inconscientemente.
o eu-mecânico
máquina-canibal
devora cada fôlego
e as suas
tripas maquinais
invadem o teu país
pelos meus olhos

Q-U-E-R-O criar-te D-O-R
surda
só ouvir o teu bafo
romper o silêncio
RRRRRRRRRRRRRRRRR
omper
até uma pilha
de metal-amor,
e não sobrar mais que
peças soltas
amontoadas
órfãs de mãe,
então
VENHO-me numa
homicida
imparável
sucessão
de slides.