a última bala

atrás das pálpebras
o manto azulado cobre todas as coisas
uma respiração pesada e lenta
no peito arquejante
encontra protecção nocturna no tecido fresco
sobre os nervos sobre a pele
estranhos ruídos polulam o isolamento
cansámo-nos de tudo e sobretudo da pressa
cativos da tentação
domesticados por violentas fantasias de possessão
as almas sangram para a boca
escorrem abandonados os troncos guerreiros em repouso
as praças onde nos conhecemos são invadidas pelo vento
e é no relógio que se esconde a morte

esquece-me
o suficiente para impedir um regresso pois
não renasceremos nos círculos
não renasceremos na perfeição
algo terá de acontecer
enquanto descansamos
fabriquemos uma nova identidade
um novo corpo
contaminando a felicidade:
lama que sufoca a garganta
e impede o grito final

que as putas dancem connosco
e os guardiões que bebam
que as crianças sejam libertadas
os poderosos enviados para o cadafalso
desnudem os monges
enquanto coloco uma última bala na câmara
puxando o cão para
desvendar a fina teia que cimenta a modernidade

comei do chão
rezai aos demónios
amai os degenerados
ante o despertar da amena quimera concupiscente
no pior dos cenários
haverá a certeza de que alcançámos uma fugaz satisfação

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