o que temos para mostrar?

o nosso verão terminou
há muito que as estrelas se extinguiram nos teus olhos
mais um gole e estamos prontos para a comédia decadente
sabes que os novos deuses estão ocultos
e manipulam-nos como marionetas,
sejamos nós os novos selvagens

os barcos já não atracam sob a lua
menstruado o deserto,
perdeu-se o misticismo
sei que seremos conduzidos ao matadouro
pois serei ladrão santo escravo asceta criminoso
sonhando todos os dias um passado romântico de revoluções e amor
nu de ideias apenas contigo para cobrir a vergonha
fomo-nos esquecendo do que era a chama da revolta
pulsando
em cada acto desenfreado
infectando
cada gesto
transformámos-nos no respeitável voyeur predando colegiais

eis as portas todas encerradas
e a tragédia prossegue com os mesmos bobos
os mesmos mestres atrás das cortinas
até que invocam a memória de marte,
queremos o nosso sangue vivo
a escorrer pelas ruas
treinaremos hordas de assassinos
invadindo as casas dos respeitáveis
para os empurrar para o abismo do deleite
e quando todo o nosso suor escorrer em conjunto
acolheremos a nossa criação
acordando todas as manhãs para uma nova luta
sacrificando a liberdade que resta

e o que temos para mostrar
senão o mundo fabricado do ouro e das falsas promessas?

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