então o deserto

subjugados pelas trevas
faróis flutuam entre o denso fumo
calçada reluzente
solidão gritante nos passos
jovens oferecem-se exibindo a carne
promovem o desejo desenfreado de fraqueza
casas antigas ameaçam ruir com a memória
tenho a certeza de que encontraríamos a excelência se fossemos até ao fundo

aprender a verdadeira arte do amor na obscuridade
sonhos de possessão no deleite feminino
odor adocicado de perfume barato que enche o peito de apetite
as forças da natureza incentivam corpos experimentados
monumento à ira dos deuses

avenidas surpreendentemente povoadas
o couro reluzindo pela iluminação pública
fachadas alegremente preenchidas
por sugestões de psicótica nudez
e toda uma cultura de repressão
afundando-se nos sensuais gestos e gemidos da luxúria

cigarros acesos como ameaças
lançam potentes interrogações
na direcção dos tementes operários e executivos que
observam o espectáculo com falso desinteresse
a pele curtida e dura grita por ser dominada
como o arcanjo que se dilacera pelo comandante supremo

portais surgem nos becos sujos e negros
camas mergulhadas na sombra
mofo para acolher a celebração
uma onda de êxtase penetra os ventres que incham de sangue e ruína

a cavalgada cresce alonga-se e transforma-se finalmente em crepúsculo
e o climax surge no acto breve de violência espontânea

depois o abandono e então sim

o deserto

demasiado longe tarde demais

que o sangue nas palavras inspire o teu crime
que o toque sensual estremeça a tua alma
o que este mundo corrupto precisa
é da insinuação da sensualidade na carne
o poder encerrado no isolamento das massas que se liberte
suprimam-se os actos de contrição

vejo o dia nascer
puro e cristalino
corpos álveos que recuperam das longas noites de amor
parecem agora desistir
deixai o nosso passado queimar
deixai a nossa história ruir
descasque-se a pele
renascendo na súbita dança da serpente divina
que os edifícios não mais nos encerrem na sua púbis
a fome inspira-nos
a dor inspira-nos
a morte inspira-nos
não vos temeremos mais
dê um passo em frente o primeiro a ousar
enfrentar lentamente o espelho
puxe da adaga e corte o cordão que nos prende ainda
ao empedernido útero

gerações sacrificadas em vão pelos aparelhos repressivos
golpe de aço manobras militares cavalgadas desenfreadas
os teus olhos perturbam-me, tornaram-se moribundos
não hesiteis irmãos, depois de tudo terminado
festejaremos os sacrifícios
não querendo nada reavendo tudo
som de turbinas hélices rugir dos motores estratégias bélicas
pode viver-se mais num minuto do que numa vida?

aqui declaro
abandonar as responsabilidades
negar os compromissos

frases de libertação pulsam no nosso peito
demasiado longe para ter medo
tarde demais para voltar atrás
a verdadeira estrada reclama-nos

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