retaliação

inconsciente nas veias da auto-estrada
descobrindo países fundando nações
inerte o asfalto que morre sob o desfilar suave das máquinas
morre também o sol atrás das colinas
enquanto os condenados se arrastam de volta para o deserto
e as crianças prestam vassalagem aos astros

fria a terra que nos devora
quando as trevas nos recebem como um longo braço de deus
há sempre sangue a manchar o chão
assassinos que uivam
passos pesados no sono dos justos
circundando a sombra maléfica das árvores
os desaparecidos e a sua última esperança
os deserdados e a sua voz inaudível

os jovens dançam alegres e embriagados
com gestos enlouquecidos e luxuriosos
não existe já espaço para o silêncio
estupraram os restos dos sonhos
por isso
RETALIAREMOS!
o sangue correrá esta noite
mas antes amar-nos-emos
pois a viagem nunca terminará
a menos que um de nós tenha ousadia de abraçar o crime

alguém fuma num bar
enquanto o conforto do néon anuncia abrigo
soa a meia-noite no relógio da torre
atiçando o desejo dos esquecidos
inflamando paixões nos ventres desprezados
é o suficiente para injectar vida nas chamas moribundas
da hipnotizada multidão
comandando-os como uma imperatriz

a vingança brotará de todos os fracassados

Michelangelo_Caravaggio_071