soltem os sobreviventes

a calçada mergulha na escuridão
corpos que se enrolam na noite sob o imparável canto da maquinaria
madrugada vencida
labirinto de lodo
rei deposto
os homens fortes não dormem

enterra-se a história da nossa cidade
sucedendo-se infinitamente
o abandono que te invoca implorando um abraço
páginas de livros por ler ardem no vazio
encontras-te intocável e incestuosa numa varanda
contemplando o rumor com o desdém de uma imperatriz europeia
carros que cortam o ar com o frio metal
como lâminas abundantes
reluzem os reclames reluzem os ecrãs
atraindo-nos como se fossem a esperança

continuando nunca conheceremos o deserto
continuando nunca conheceremos o abismo
continuando nunca conheceremos a alvorada

alguns descontentes formam um exército
no sonho refém de lutar por um mito há muito arruinado
revolta-se a natureza clamando o seu preço
regressaremos ao útero
regressaremos ao túmulo
mas regressaremos

sentados na praça
vítimas da intempérie
optimistas e rejuvenescidos
aguardamos a febre dos amotinados
despojem a população de todos os bens!
da pele e da carne
até nada sobrar além do asco da alma
frente ao espeho
sem mestres nem lacaios sem desculpas
pura nudez crua bruta e violenta

soltem então os sobreviventes

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