no calor do corpo

lânguida chuva na janela imóvel dos carros
gota-a-gota-a-gota-a-gota
instala-se enfim o pânico na mente dos passageiros
desespero na insegurança
já lhes contaste, querida, que não existe segurança?

vagueemos nús por este mundo apocalíptico
onde as estrelas se extinguem perigosamente
prestamos vassalagem aos quatro cavaleiros
no lento fumo que forma ideiais no ar
subindo em direcção à frieza da luz pública
apontada à água que cresce da calçada

desamparados ou expulsos de mais um útero
a sombra dos apressados enfeita a alvura da tua pele
cobrindo-a de brilho fantasmagórico
no calor do corpo não há medo que não se afogue
no calor do corpo não há desejo que não inche
NO CALOR DO CORPO TODAS AS LUTAS

o autocarro passa preguiçosamente
chacinando o conforto das nossas trevas
ao longo das ruas secretas
a alucinante dança de neon
na parte velha da cidade,
a água que escorre para o rio
questiona a imutabilidade de tudo o que conhecemos
inconscientes seres na lama da servidão
homenageiam os grilhões com a consciência

quem incendiará ainda a monotonia das tardes isoladas em que sufocámos uns pelos outros?
a verdade devolverá a pureza a todas as coisas

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