no calor do corpo

lânguida chuva na janela imóvel dos carros
gota-a-gota-a-gota-a-gota
instala-se enfim o pânico na mente dos passageiros
desespero na insegurança
já lhes contaste, querida, que não existe segurança?

vagueemos nús por este mundo apocalíptico
onde as estrelas se extinguem perigosamente
prestamos vassalagem aos quatro cavaleiros
no lento fumo que forma ideiais no ar
subindo em direcção à frieza da luz pública
apontada à água que cresce da calçada

desamparados ou expulsos de mais um útero
a sombra dos apressados enfeita a alvura da tua pele
cobrindo-a de brilho fantasmagórico
no calor do corpo não há medo que não se afogue
no calor do corpo não há desejo que não inche
NO CALOR DO CORPO TODAS AS LUTAS

o autocarro passa preguiçosamente
chacinando o conforto das nossas trevas
ao longo das ruas secretas
a alucinante dança de neon
na parte velha da cidade,
a água que escorre para o rio
questiona a imutabilidade de tudo o que conhecemos
inconscientes seres na lama da servidão
homenageiam os grilhões com a consciência

quem incendiará ainda a monotonia das tardes isoladas em que sufocámos uns pelos outros?
a verdade devolverá a pureza a todas as coisas

sejamos sanguinários

que a tarde termine
assim os corpos fiquem mais leves
e as pequenas criaturas invadam a ilusão da serenidade

que a noite comece
para o tédio dar lugar à nudez
sofrer pelo nosso entusiasmo
lento reencontro dos companheiros de trincheira
tempo finalmente recuperado em palavras sem direcção
toque sem objectivo
e o suave calor do teu bafo na minha pele
gentil tilintar dos copos & enrolar + um cigarro
como se fosse uma lenta marcha

quando conseguiremos esquecer que isto tem um fim?

a luz inextinguível encontramo-la nas trevas
com breves resquícios de imortalidade todos se amam
fecunda liberdade da escravidão
nem o cansaço nos parará agora!

não temas o passo seguinte
não temas a fome
não temas o poder
somos o farol da cidade
e queremos sempre mais
sem conseguir morrer,
não temas o amanhã
sempre o conseguimos derrotar
não temas a brutal conquista dos minutos
pois nem o próprio deus nos parará agora

que o alvorecer nunca nos alcance
sinto-o irromper no alucinante palpitar do peito
agora que entrámos no demente e nocturno espasmo
sejamos sanguinários!

espremer tempestuosamente este mundo por tudo o que tiver ainda para dar
e que ninguém saia sem levar tudo aquilo a que tem direito

o teu toque eléctrico

o poder do apetite impele-nos em direcção à ruína
homens destruídos ante a visão da carne
mulheres assassinas ante o sabor do poder
viemos só para te ver
-o teu toque eléctrico-
descobrir o teu segredo
-o teu toque eléctrico-
saborear o sal do teu suor
-o teu toque eléctrico-
tu por quem derrubaram ídolos
por ti devastaram continentes
tu que dividiste amantes seculares

frio e oco o som da lâmina
dedos que acariciam o pescoço
sempre o terror nocturno
todos na fila das vítimas
é isto a gória prometida?
alinham-se as bestas para os cumprimentos
enquanto as dançarinas possuídas agitam frenéticamente as ancas
numa vertiginosa sucessão de eventos

se há um guia neste labirinto que se mostre agora!
que nos ofereça a visão de tudo o que foi esquecido
para que nos banhemos neste antro de perdição
foi a loucura que nos acolheu
ou nós que a abraçámos primeiro?

sente-se a urgente promessa de fim no ar
-o teu toque eléctrico-
quando um só fio do teu cabelo roça o meu lábio
-o teu toque eléctrico-
se tudo terminar saberemos
ou continuaremos na mesma?
pelo menos afungentámos os mensageiros da falsa esperança
viste os subterrâneos?
prefiro o espaço entre a peste e a privação
aniquilamento que realiza todas as coisas
sacríficio que fazemos para sermos dignos
e que merecemos nós?

na parada de golems ansiosos por devoção aos mesmos demiurgos
milhões tornam-se shangri-la
é o sangue que concretiza cada momento
e nós que sangramos profusamente da mesma ferida
há eras infinitas