quanto mais depressa melhor

sofremos demasiada pressa para as palavras
quando vão escasseando os raros momentos de liberdade
eis que o condenado sai para o cintilante pátio
e pestaneja os raios solares através da memória
contabilizada existência condenada existência
quem de entre nós com a audácia de se render a cada minuto?
quem de entre nós se libertará em direcção ao amor?

as cidades foram-se labirintificando
grutas onde floresce o desejo
súbitodesenfreadoinesperadodescontrolado
multidões sôfregas pela surpresa hipnotizadas pelos gestos
algures a catastrofe chegará
confrontando-nos com a ausência da nossa grandeza
e prometo-te:
quando o homem retornar à incerteza despojado finalmente dos grilhões da modernidade
irmãos guerrearão entre si

e tu para onde caminhas? sem consciência do fim
velozes na interminável oração
seres alados empunhando lanças que repousam em nossos ombros
conduzindo-nos para a armadilha do hábito
cantando o pecado

qual de entre nós sabe o preço que se paga pelos sonhos dourados?
quem de entre nós já esteve face a face com o criador?
realizam-se na erótica placitude da fêmea desconhecida
irrompendo na santidade da carne em busca da terra prometida
mas enfrentando apenas o eterno vazio
nada do que as nossas mãos jamais tocarem será alguma vez nosso
pois há demasiadas palavras vãs para que exista ainda poesia

silenciosas as lápides que amedrontam os que carregam conquistas
almirantes agora reduzidos a pó galeões feitos em escombros
e o velho mundo saqueado em nome das mentiras dos iluminados
encontrem um porto seguro para os que perderam a alma
para quem trocou pela fortuna as côxas duma bela desconhecida
no quarto que tanta dor alberga

feridos os mandamentos que jamais serão proferidos
que ardam como lagos de fogo e enxôfre
rasgando corações como facas traiçoeiras
ao ritmo do sacrifício do homem

quanto mais depressa melhor

Dilúvio

esquecido o dia no coração da juventude,
sonhos de máquinas desmembradoras perseguem os santos

dilúvio-dilúvio-dilúvio!

a cansada terra expurga-nos,
escuta os profetas da televisão
o apocalipse abraça-nos antes do passo final em direcção ao precipício
todos os momentos são agora ultimatos
caminha entre nós o arauto do fim dos dias
virgens sangram sem razão enquanto os inocentes ferem o flanco do messias com ódio
ao ar pesado sucumbem os derrotados
nações/contra/nações
onde está agora a resistência e qual o preço da salvação?

momentos houve em que desconhecíamos o fim de todas as coisas
esqueceu-se já o valor
deixem os anjos ceifar os campos de batalha em busca da pureza
que os oceanos se revoltem e as terras se reconfigurem

cresce o silvo da serpente:
sssssssssssssssssssssssssssssssssssss
ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss
sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss
sob a cascata do tempo

a multidão amedrontada disto e daquilo e da morte
destrói saqueia e invade
o que posso fazer para que te juntes a mim?
dançam morbidamente os feiticeiros entre os pálidos cadáveres
sob a crueza nua e dura da lua
os homens perdem-se em insignificâncias
……o ócio que os arrastooooooooooooou

dilúvio-dilúvio-dilúvio!

mulheres entregam-se violentamente em desespero
saúdem o armagedão!
que nos acolhe diariamente
acomoda-te junto aos teus qual cria no peito materno

acredita
o reino do sono aguarda-nos