hecatombe

somos apenas a passagem para um destino melhor
desfazendo-nos em sacrifícios pela terra
tanto não foi ainda proferido
sucumbindo às mãos de estranhos
que esgotam o mais precioso dos recursos
agora que o dia termina
surge o frio da separação quotidiana que empurra os homens para a neblina
travando falsas batalhas contra inimigos imaginários
revela-se o busto das trevas atrás da montanha

homens procuram a força no conforto dos seus
repetindo os mesmos gestos de perdição
mudar de nome/vender o que resta
visitando o anonimato do interior no despertar das torres
reconhecidos na entraga ao submundo
abraçando o sangue do desconhecido em troca de ouro
sofrendo eternas perdas no labirinto do tempo
vergados uns pelos outros na fila dos acontecimentos
habitando a mente dum poético passado
com o falecimento dos combatentes pereceu também o amor

sentamo-nos à beira do abismo
sem vontade de hecatombe

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Dividir para reinar

os minutos que perseguem o corpo rugem para ser agarrados na fibrilação do fim do dia
céus carregados de falsas promessas assombram os corações
enquanto luminosos autocarros sobre a calçada húmida espelham a solidão

não há quem questione o jogo
os jogadores cansam-se envelhecem emudecem e guerreiam-se

dividir para reinar

mestres ordenam atrás do pano o amor engarrafado
cheira-se a histórica tinta do medo
começa o rumor do inverno nas ruas intermitentes
derrotados que estão os selvagens sob o bélico jugo da civilização

o homem aplaude
porque teme o refúgio na nossa herança
e no tremor o santuário duma nua presença

lá fora projecta-se a moribunda raça, reflexo da monotonia
os que ainda desejam socorrem-se dos mesmos artifícios
nossa protecção nas trevas, nação de pele quente e de terra
pode ainda o amor incendiar o ânimo dos desanimados?
pode ainda o amor inspirar a alma dos deserdados?

a incessante procissão continua
e o que recebemos do nosso monumental passado?
bispos, deuses e generais que subjugam as migalhas do espírito
na máquina de amalgamento
quem sabe a diferença entre tudo e nada quando se vive para o desejo?

ainda assim permanecemos
porquê e até quando?

Aqui nunca acontece nada

desta vez espero-te na oca luz da madrugada ascendente
como o suicídio nocturno da constelação conjunta
lembra-te da coragem dos navegadores perseguindo novos mundos
quando irá este tornar-se velho? e o que fará isso de nós?

a cidade desperta apenas para cair novamente na letargia
quando a nudez é invisivel e urgente no seu espaço
sou um dos seus raros sobreviventes,
esperas ter a quem dizer palavras diferentes
curandeiros e profetas-todos ardem nas chamas da nossa cruz
quem é agora o espectador e o que vê senão mortes sucessivas?
da infância da juventude do corpo dos minutos
e as que sucedem frenéticamente dia-após-dia

saio na vã busca de compreensão
olhos intoxicados na dimensão distorcida
assumindo obedientemente a posição no desfile de súbditos
imaginando paraísos na conformidade
AQUI NUNCA ACONTECE NADA
a não ser a mesma infindável promessa implícita
o grito de que nos esvaziamos enche de pânico as legiões
mas é a memória soterrada que impede a acção,
imparável é a engrenagem que nos subjuga
não há ainda coragem medo despero sede de vingança ou amor suficientes para matar