não há sacrifícios para quem nada tem

gloriosa a manhã irrompe com o chamamento do oceano oculto sob as pálpebras
– há tanto para ser feito hoje

o que procuramos no meio da neblina?
atracção cósmica que nasce da pele
espera algumas horas e as ruas serão invadidas de novo por uma falsa alegria
odiamos o movimento porque é oco
odiamos o passado porque é uma prisão
odiamos as casas porque são separações

onde está agora o falso deus que pariu esta pesada estrutura?
meras crianças à mercê dos elementos
não acreditarão no dilúvio quando chegar
homens sonham com o apocalipse sem o saber
-suprema libertação da cobardia-
queremos esquecer o mundo que ontem quisémos vencer
demasiado rápido demasiada juventude demasiado desejo

afastados da estrada do excesso longe do palácio da sabedoria
afogando-nos na incompreendida solidão
NÃO HÁ SACRIFÍCIOS PARA QUEM NADA TEM!
isolamento invadido pelo ofuscante brilho duma enganadora terra prometida
a redenção está no deserto
a redenção está no deserto
a redenção está no deserto
a redenção…está no deserto…

vai, parte agora
ou serás mais um que desistiu
o ventre tem de ser fértil antes de dar fruto
legião de escravos na lama da felicidade, saboriais a liberdade?
não é doce o seu sabor?
tanto como é amargo o da vitória
que vitória? sobre quem? a que custo?

o fim está iminente

agiganta-se a distância entre os corpos sem lugar para a morte ou solidão
cidade que adormece nos ruídos abafados, menos para os resistentes que reclamam as ruas:
– queria sobreviver ao tempo, não mais contar os minutos, não mais desejar os objectos

antes que te rendas ao momento já outro o sucede
e amanhã um novo imutável dia
em procuraremos ainda ferozmente a hà muito perdida magia das palavras e das ideias
– para quando revolta contra as coisas ocas?

insuflar vida às criaturas dormentes que diáriamente aceleram da origem ao objectivo
serei em breve apenas mais um dos profetas loucos anunciando apocalipses por um megafone
maldizendo um deus que não concluiu a sua tarefa, abandonando tudo por uma meretriz?
a verdade nunca nos trouxe nada senão mais mentiras
a mentira nunca trouxe nada senão a obsessão pela verdade
sobre isso falaremos quando voltares

tenho uma casa inteira onde sonhar e escutar o eco dos passos
ouvir o som do mundo clamando o regresso dos seus filhos tresmalhados da teia da ilusão

não há mais lugar para mestres e professores
porque em breve nada saberemos
nada temeremos
nada teremos
nada quereremos
em breve
nada