diário da vida na terra da morte

o crepúsculo lento para os solitários caminhantes
que erram pelos passeios inacabados
a modernidade? um mito para os infieis
sentes agora a falta do bem mais precioso:O TEMPO?

respiras lentamente
porque somos apaziguados com imagens
marchando obediente
para receber o quê?

sei que já perdemos tanto
mas não perdemos tudo
tantas vezes os nossos olhos fecham
nos quartos onde nos encolhemos
julgando encontrar a protecção nos braços
onde julgáramos encontrar refúgio
líquidos são os espíritos que percorrem fantasmagóricamente a distância que os separa da verdade

é para o desfiladeiro que nos dirigimos
cintilando mágicamente no começo da história
no amanhã não há redenção
no passado não há identidade
e na insónia que fere a madrugada
pensamos desesperadamente em fugas
pensamos desesperadamente no oceano
mas é a primeira luz que transporta a frieza da realidade
e com ela a resignação de mais um destino inevitável
acorrentado à promessa de liberdade
debilitando os que resistem ao lento desfile do quotidiano forjado no ócio

haverá ainda espaço os que nada querem e nada têm?

um rasto de pó

não são só as casas que ficam vazias
nem os pensamentos que nos prendem
não confundas a solidão com o silêncio
nem o tempo com tudo

é o vento que inquieta o mundo
torna-o temente do amanhã
a dívida dos desesperados deposita-os nos braços de deus
os outros sucumbem entre si
e por mais próxima que seja a deriva
jamais nos tocaremos,
refúgio que se forja nas palavras
até que o bafo quente da morte repouse sobre os ombros
a vida é a espera por alguém
na falsa alegria das noites
e no fim? só resta a nudez, nunca a redenção

o crime não alcança salvação sem culpa
sangue derrama-se
sem honra
para almas errantes como nós deixando um rasto de pó sob a violência do meio-dia

ninguém te avisou que depois de todas as coisas
a terra permanecerá/imperturbável?
as civilizações crescerão/imperturbáveis?
então, não temas cada anoitecer como um túmulo
o paraíso arde hà muito
os homens pecam na devoção da fábula
e a nós, empedernidas e cépticas criaturas, nenhuma derrota foi inflingida
pois nada havia para ser perdido

rende-te.comigo.ao palpitante vácuo

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quimera prateada

todas as vezes em que o tempo esteve em nosso poder sem sabermos como o possuir

a madrugada que durou para sempre prendeu-nos no abraço de estranhos cujas palavras ainda não compreendemos
doce oscilar das doentias luzes nas ruas abandonadas
e foi no último raiar do sol que percebeste que tudo mudaria
promessas jamais cumpridas
foste tu o alvo de adoração dos homens que cobiçam o intangível
de tantas vezes não sentir o corpo confunde-se o sorriso na dor
enquanto o país se afunda, afunda-mo-nos com ele
de roupas andrajosas que cobrem a nossa vergonha
embaraçados nos jogos de consumo da tortuosa e infindável busca de satisfação
quantas mais idolatrias antes da felicidade?

lentamente separamo-nos da inocência para o voluntariado na guerra de irmãos incentivados pelo falso messias temido como o deus colérico de outrora
é esta a herança dos desafortunados?

no dia em que conhecermos a justiça
degolar-se-ão os comandantes desta cruzada fatalista
a revolta é A NATUREZA DO HOMEM
ou esta é a quimera dos loucos solitários encarcerados nas infrutíferas horas de sono