motins

fumo no horizonte
arde o futuro reflectido nos teus olhos indiferentes
crianças espalham alegria
cães em busca de comida
as bestas percorrem as largas avenidas com os donos:
homens no alto das torres envidraçadas protegidos do ruido e do toque
contemplam o seu esmagador império

outrora abrigo, esta casa fez-se prisão
outrora objecto de desejo, este corpo fez-se monumento à fome
foi tão bom antes de sermos acorrentados à erosão temporal
consumindo-nos tão sofregamente como ao novo mundo
sabemos agora a verdade
sofremos agora a verdade
depois da demanda incessante
nunca corajosos nunca curiosos
amamo-nos agora neste beco sem saída que ajudámos a erguer
todos os dias com a brandura dos gestos e a suavidade da pele

eu sei que os sonhos perecem senão o que seria de tudo o que fizémos?
eu sei que os sonhos perecem senão o que seria de tudo o que fomos?
às vezes com a coragem de ser diferente
beber loucamente e deitar-mo-nos com desconhecidos
a razão como morte da alma
que a tua não sucumba!
contaminando o mundo
com essa oração sensual

que sintam quantos motins contem um tímido toque no momento certo

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apressem-se, é agora ou nunca

estranhos abraços no desconhecido
o torpor erradica-se no momento da surpresa
multidões clamando por sangue ocupam as ruas
que ardem como corações esgotados

fogo que cintila na noite urbana sob a lua cheia
os amantes entregam-se nos carros brilhantes
as paredes que gritam por revoluções
e as hostes embrigadas que se procuram
e pocuram o conforto
há homens abandonados
há mulheres gastas
morreremos na cidade que nos quebrou?

aqui somos o mesmo animal
viscoso deambulando pela sujidade dos becos
em busca de presas-criaturas-vítimas
que se tornaram disformes e solitárias
segurança no rebanho & obediência na segurança
o momento de liberdade esvai-se fugaz
deixando a antecipação e o desejo da morte

quero ser reconhecido
quero ser tocado
quero as guerilhas sem causa
as armas artesanais
os motivos desesperados
eu.labiríntica humanidade

temam o novo dia
desesperançado
mais escravizante que o anterior
a esperança que dilacera as almas torturadas
– DECAPITEM OS OBESOS IMPERADORES DA LUXÚRIA E DO ÓCIO!
os homens querem mais
as mulheres querem mais
a raiva oferece-nos tudo

o fim do dia rompe a quietude do horizonte
e por instantes tudo parece inalterado
uma criança nasce um velho morre
a pulsação do planeta acelera a decadência celular dos ambiciosos:
– apressem-se, é agora ou nunca

enquanto nos sentirmos vivos é porque realmente o estamos

temos que deixar novamente o sagrado leito onde os sonhos foram sepultados:

a relva fria gotejante dobra sob os passos quebrados pela engrenagem que tudo mutila
repetindo repetindo repetindo repetindo repetindo repetindo
até à loucura
espantoso é que a verdade exista
por entre a neblina que nos envolve fria e desconfortável
porque razão aqui estamos?

para despedaçar a carne dos corpos espalhados pelas gigantescas estruturas
matéria espelhada grandiosamente pelas catedrais
já nada é sagrado
já nada é belo
já nada é virgem
e a meia-noite assombra os minutos
na desesperada dança do rebanho
pelas estradas intercontinentais

as máquinas descarregam almas em exercícios de submissão
fazendo fila aos pés dos ídolos
cada um de nós-assassino sorrateiro
morte que surge como visãodeslumbranteinesperada
furtando a segurança

poderia contar lendas extraordinárias de excesso e guerra
mas temo pelo futuro
quando o presente é assim tão frágil/1000 budas sinistros aguardam-nos nas trevas
a terra precisa de nós como nós precisamos da terra que precisa de nós
nocturno milagre de embriaguez num perfeito amoroso momento

recolhe as tuas frases aborrecidas as metas os objectivos
a humanidade não foi feita para obedecer
conspurcação que viola a sua santidade

enquanto nos sentirmos vivos é porque realmente o estamos

recordem o passado/queimem-no de imediato

a manhã eleva-se sobre nós como uma promessa há muito por cumprir
raparigas correm apressadas de volta para a fantasia
a noite devolve ainda as almas perdidas
ao som do velho que toca canções apocalípticas
a multidão escorre como demónios para as artérias da capital
quando a estrada resplandece sob o peso do sol crescente

todos os momentos morres um pouco
deixando resquícios de pele no ar
a busca interminável nas dúvidas
nos gestos perdidos
cidade labiríntica que te digere nas entranhas
enfraquecendo
até confundir amor com vício
vício com amor
sempre escravos de alguém
alguém sempre nosso escravo
ouve o ardor nas vozes dos que passam
a sua carne não chega a ferver

recordem o passado/queimem-no de imediato
o amo continua a chicotear as bestas
e elas obedecem
a rotina precisa de ser interrompida
o sangue tem de correr nas ruas
os estranhos que se amem
jamais abandonando a festa
para combater cada dia em embriaguez

NÃO DEVEMOS NADA!
NÃO TEMAMOS NADA!

os irmãos reúnem-se tresmalhados
mas a palavra é fraca
o prazer enterrado sob a fabricação da realidade
quem será o primeiro bravo homem a penetrar a desconhecida dimensão,
nação herdeira dos descobridores
afunda-se em burguesia
recordem o passado/queimem-no de imediato
a morte é maior honra do que a serventia dourada

poderá não haver outra manhã assim tão gloriosa