desmembramento

jogo da solidão próximo das torres espelhadas/quando o vento assobia desordenando os cabelos alinhados
deixaste envelhecer a cidade
ela não nos acompanha mais nas distantes memórias
perdemos a sua posse

o fogo que já não arde os corpos que já não se desejam
falta-nos um sítio secreto como a juventude agora
que as árvores desfalecem distanciam-nos as paredes

e o que queremos? é um novo dia.

o tempo para o observar celebrando os erros que nos trouxeram aqui
a magia escassa das palavras que ainda incendeia os corações
enquanto nos separamos podemos perder-nos lentamente
mesmo que grave na carne
…cada detalhe…da tua…

o tempo?
é a fúria do oceano que nos dilacera lânguido-e-sádico
com urgência surgem as noites
porque não queremos que o sono vença. novamente.
encarcerando-nos até à manhã
do cais e dos bancos ainda húmidos
e dos autocarros que enchem de fumo as frias ruas
que já foram puras
ainda temos aquele momento em que o sol
(rasteiro)
branqueia todas as coisas
obrigando-nos a fitar o chão

mais alguns beijos
mais algumas despedidas
e eis a hora de partir para o novo dia
suando
pelo momento de parca liberdade que surgirá eventualmente
e então, incrédulos, observar-nos-emos,
sem saber que destino lhe dar
para que tenha significado
para que perdure

a solidão enterar-nos-á novamente

 

animais insaciáveis

a madrugada recebe-nos no ventre como crias
memórias de neon na pele
o suave desfile das criaturas que vira costas à cidade em direcção ao sonho do crepúsculo dourado
encontramo-nos
mas há falhas no nosso corpo partilhado
escravos do ecrã
esmorecemos na respiração
as folhas afastam-se dos pés
encerrados na prisão do pensamento que forma labirintos perfeitos

a liberdade do interior que nunca se atinge
SANGRA!
para purificar
abandonando os velhos ídolos
não mais sucumbir ao vício!

a chuva que endeusa as mulheres com que os homens fantasiam, orgulhosos
encostados ao reluzente metal
a lua que cresce, hipnotizando-nos quando entras na noite (…comigo)

somos
animais insaciáveis na procura de vingança
contra o ócio das semanas
QUEREMOS A MORTE!
QUEREMOS O CAOS!

os teus olhos encerram continentes perdidos
chamas que consomem os arquipélagos envelhecidos e viciados
os cabelos agora molhados ondulam
as botas reluzentes desfiladeiro dentro
brilham como almas fantasmagóricas
animadas pelo púrpura do céu

a pureza é somente isto:
o ar gélido na pele nua
o toque quente da carne
a simplicidade de existir
de que só nos lembramos quando tudo está perdido

não seguir mais a multidão
as vitórias não são mais do que a coroa dos deserdados
é a terra o nosso novo lar
habitação sem amarras
até escorrer como um oceano poderoso
AGIGANTAR-NOS-EMOS

Precisamos de sangrar para nos mantermos vivos

a morte do entardecer insinua-se por entre as torres que cercam as grandes vias e
logo seremos engolidos pelo inverno
eis que a pele se esconde/motores rugem entre o fumo matinal
nasces qual aparição no frio do novo dia em que desfalecem crianças na neblina e os dias se arrastam infinitamente

quem deixou o silêncio desfalecer? ele que era a única salvação possível!

gente-sem-nada fuma encostado às portas dos cafés
jovens desgastam-se
solitários demónios anseiam pelos encontros na noite:
– Precisamos de sangrar para nos mantermos vivos
dizem os que já estão mortos
e nós roubamos horas ao sono para as depositar como coroas de flores a seus pés
a fim de sermos mais do que meros sobreviventes agora que
os túmulos proliferam lá fora
as doenças infectam aqueles que se alimentam de ilusões

o nosso tempo esteve sempre contado
a verdade esteve sempre ao nosso alcance
mas qual de nós abrirá o peito para a acolher?
qual de entre nós a espalhará pelas ruas como uma febre
à imagem dos mais loucos profetas?

a solidão infectada de medo faz suar a carne
beleza plástica/respiração artificial/fardas dos guardiões/a idolatria
contemplem a semi-nudez baloiçando-se frente a nossos olhos
quem não a quer ser ou possuir?

as púpilas nunca se dilatam tanto como antes de fechar definitivamente