transmutação

os homens descobriram o corpo no mesmo dia em que o perderam na suave melancolia das nuvens
grito nas praias desertas do inverno atraindo a chuva sobre os bandos de gaivotas
e sei que o nosso tempo se esgota pensando no que não foi dito

enquanto que quem encontrou os seus viaja para a costa no momento em que as estrelas se consomem e o céu arde
montando os corceis de fogo em busca de novos mundos abandonando as casas em ruínas, não é só a madeira que apodrece
sem posses na terra dos deserdados

“o que precisamos agora é dum começo e se tudo o resto falhar abraçaremos o abismo como nas velhas cantigas”

viajando na vã busca da perfeição recordando a longa infância perdida em estradas, não nos destinos
o doce rugir mecânico despe-nos do frio aço da realidade e o rádio canta sobre a paisagem arrastada os pobres rumam para sul os ricos banqueteiam-se das almas alheias e o que resta da humanidade incha de esperança emprestada pelas lendas

há sempre o dia em que tudo muda e deixaremos de ser quem fomos para ser o vácuo o nada o vazio e a fé cosida sob a pele para que haja uma hipótese de ascender aos céus se a nossa vez chegar deus acusar-nos-á de ser as putas cobardes e egoistas que sempre fomos

era a verdade aquilo que todos ambicionavam?

 

Prece/Vácuo

decadência que se inicia com o primeiro fôlego e eis que a estrada resplandece e prolonga-se
mas termina também
quantos mais dias assim existirão?

encontro as almas perdidas que choram por um lar
e no mesmo dia em que percebemos ser nós os errantes a terra transfigura-se
como um corcel selvagem e temerário em direcção ao seu fim,
nós que montamos o seu dorso calejado
atravessando aldeias perdidas do interior montanhas a norte encostas solitárias no silencioso litoral desertos a sul

no recanto obscuro do sonho de suado despertar ambos sabemos não fazer diferença o local
envelhecemos alguns anos na cidade inalterada de cúpulas envidraçadas
e as raparigas de cristal por quem os homens suspiram como o redentor pelo sacríficio não nos podem salvar
nós sabêmo-lo

oh deuses das auto-estradas
por mais demente que seja a nossa cruzada pelas vossas veias
o tempo é a senhoria que nos sustém no abismo
mas a cada nova revelação
(como na primeira vez)
o sol nos acaricia primeiro o topo das mais altas estruturas
glorificando-nos finalmente com o seu brando toque
a memória torna-se um membro falecido
livramo-nos de marcas e chagas
para que representemos a doce infância
no teatro da multidão que ruge aos ouvidos de cada vítima
e cada novo passo é a subtracção duma respiração