o fim da noite

o fim da noite arde nos corações jovens
tu, que foste uma breve promessa por realizar na embriaguez súbita dos convidados
respiramos como cristal sob o peso das assombrações
quando os exércitos de putas assaltam as esquinas soprando amor na nossa direcção
estranhas criaturas forjadas nas horas do silêncio

a roupa que abandona o corpo na penumbra
projectando mistério nos olhos dos que desejam
aqui é que a luz se torna mágica
aqui é que as palavras escorrem das bocas
aqui é que tudo cintila à tua volta
tornas-te brilho
e nós?
meros escravos das entranhas

as estátuas derretem
a carne ergue-se
e a morte é o motor que nos embala no segredo nocturno dos rejeitados
é teu o reino da luz sobre a escuridão dos oceanos

quem não conhece o teu amor?
quem não o saboreou já?
as segundas oportunidades são escassas, procuram por ti
tu, de coxas trémulas
tu, felino das ruas
regurgitando candidatos a amar confinados aos minutos

em breve terminará tudo
a paz das estradas engolida pelas legiões dos aflitos
a jovielidade das ruas varrida pelos seduzidos pela infinita cruzada pelo poder
os desabrigados acorrem à fome
e as guerras de todos os dias encherão as mentes

quem resistirá para te adorar, depois da corrupção?

 

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Auto-da-fé

Aparte

a trágica hora do retorno assombra os passos resistentes
quantos minutos passaram desde a revolta do animal?

quando os dias diminuem aceleramos pelas estradas secundárias do país deserto
sangrando porque a monotonia vencerá
sangrando porque assim a vida ferve
os nossos corpos exigem:
1) o amor dos ausentes
2) o tempo dos abandonados
3) a visão de um deus vingativo que pernoita preguiçosamente sobre os seus louros e na nossa escura cruz que preenche a sala

os pequenos animais agitam o império
a nudez liberta-nos da aliança forçada com o desconhecido
o amanhã nasce no fim desta noite receberemos ainda o sol com o fulgor dos renascidos / o dia com a força das novas criaturas flutuando a oriente

eis que o primeiro carro corrompe a magia que sobrou do passado e é então que
a maquinaria nos embrulha nas entranhas satânicas até ao sepulcral silêncio inatingível
porque somos ainda os mesmos andrajosos e foragidos seres
somos ainda os mesmos urros desperantes ardendo em direcção a uma qualquer saída
aquele que vencer o momento que se chegue à frente para liderar as massas em direcção à terra prometida

– Não! Basta de promessas, queremos a verdade antes que a idade nos despoje da juventude e da força, antes que a gravidade nos roube a beleza, antes que a ambição nos roube o poder

AGORA!