Demónios no asfalto

cada palavra forjada no reino do amanhecer pesa
imobiliza-nos
como capitães à mercê da neblina quando o silêncio sufoca em gritos como numa espera
em que o que resta da falsidade em que o que resta da fabricação da vida
é demasiado frágil para o suster

– pressa para quê?
– amor? para quem?

deixas a cidade cambaleando pelas estradas cintilantes
guiando
guiando
guiando toda a noite
na latitude da primeira estrela e na recta eterna surgem então os acidentes:
a pureza do metal violentada a delicadeza da carne plantada ao longo do asfalto tingido de sangue

os espíritos dançam os espíritos tremem mas não assombram
a não ser quando encaras o passado
as paragens dos nómadas revelam os dias na sua essência imaculada
quando o tempo é apenas mais um desfigurado cadáver
quando o tempo é apenas mais um derrotado cadáver
quando as estações se sucedem
somente menos um sopro do corpo
planetário onde os amantes são fruto do choque e da fome
produzindo calor nos pólos
então

a consciência cede ao instinto

reconheces os teus demónios nos pneus que guincham
reconheces os teus demónios nos brancos traços da estrada
diluindo-se finalmente numa só seta
em direcção ao teu deserto privado
rompendo o peito como um novo centro
incendiando-se sobre as rochas do desfiladeiro

ultrapassa a familiaridade da linguagem e
descobre-se

no infinito

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2 thoughts on “Demónios no asfalto

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