Prefiro arder

visões assombram-nos enquanto despertos nas auto-estradas que rasgam os continentes como lanças e as mulheres sangram terra dentro
labirínticos fins de semana no excesso nocturno com putas mal amadas que se afundam no cheiro da esperança enquanto os animais escondidos nos gabinetes engordam moribundos

alguém trará boas novas? ou dividir-nos-emos até à dilaceração?

aqueles que possuem o dom da palavra que incendeiem as mórbidas massas encarceradas na casa dos espelhos onde os neons são os fantasmas dos ossos do desejo e o sol não mais purifica
os assassinos galopam sorrateiramente pela cidade enquanto admiramos o seu poder

quando irá esta masmorra ruir?

o coração colectivo crepita mas não bate em uníssuno:
mais uma aurora menos uma aurora mais uma aurora menos uma aurora mais uma aurora menos uma aurora
as bombas-relógio que tocam dentro de nós os filhos que morrem os anciões que envelhecem junto com a história
ao menos agora o poder está nas nossas mãos, inconscientes e cobardes, enquanto se descarnam emagrecem e secam até que os amantes se iludam na escuridão

prefiro queimar do que desvanecer
prefiro queimar do que desvanecer
prefiro queimar do que desvanecer

prefiro o esquecimento

prefiro o fogo prefiro o esquecimento prefiro queimar do que desvanecer prefiro o esquecimento

e no tempo que resta visitaremos o amnésico novo mundo condenado à urgência do imediato prazer terreno

prefiro arder prefiro arder

PREFIRO ARDER

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os que sonham

o cortejo que desfila brandamente sobre o piso irregular arrasta consigo as chamas na procura da perfeição observando indiferentes aos palácios que ardem às cinzas que foram os jardins doutrora

vestiígios de civilizações queimam como uma camaleónica pira enquanto os loucos celebram a loucura dançando-pessoas que podiam ser anjos se a pureza ainda existisse despem-se e agitam-se contra o corpo mais próximo como asas como bastiões como ecrãs emprestando uma qualidade de sonho isolando as massas de si mesmas

as grandes auto-estradas são uma seta de solidão albergando as criaturas nocturnas

a máscara das épicas mentiras caiu e os rastos destroçados e os restos destroçados e os rostros destroçados circundam a periferia da antiga cidade em busca dos curandeiros ansiosos por agradar ansiosos por esquecer ansiosos por amar o velho diabo conhecido chorando como que pelo regresso ao útero exauridos pelos monumentos bestializando-se como quentes demónios cantando cantigas novas na esperança de que a chuva purifique a história

os punhais que não dilaceram só a carne

as palavras que não dilaceram só os corações

as cicatrizes que palpitam nas noctívagas capitais do homicídio esmagadas por horas de neon

os que sonham com ídolos

os sonham com líderes

os que sonham com pastores

os que se deleitam na sobrevivência da preguiça

 

EU SEI

que a dor forja no âmago os grandes homens