transição


a penumbra cobre lânguidamente os destroços duma jornada e o véu de corpos celestes nasce silenciosamente como quem promete a eternidade
a nossa carne é a verdade e encerra velhas almas perdidas em busca de companhia
os nossos ossos são a verdade carregam marcas de chagas passadas
e o universo é transitório no teu toque no meu toque em todos os toques ou nos frios imperadores das nações de pedra que comandam o teatro de guerra enquanto os deserdados se amam nos pequenos quartos abafados em busca dum relampejo de imensidão, HOJE devaneiam pelos hoteis e bares desesperados por uma só palavra de conforto
agora que fomos cristalizados e esmoreceu o fogo capaz de encarnar a última juventude
abandonamos os vestígios dos cárceres modernos com os carrascos a gritar ainda no nosso encalço e a fronteira entre o desejo e a consumação estilhaça-se madrugada dentro na soberania trágica dos aparelhos

começa o devaneio gustativo sobre o asfalto e precisamente então as pestanas erguem-se como portões que dão acesso às masmorras e a fulgurância dos fantasmas que nos correm nas veias assombram remotas memórias da exortação noctívaga

só-e-dourada

como santos esfomeados repousando no colo das mães futuras
longinquos sombrios sorridentes naufragando perenes na animalidade

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Portugal modernista

“Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos agora a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco.”

Amadeo de Souza-Cardoso

do erro e do caos

as estações atravessam-nos rompendo a pele até às entranhas amanhã beijar-nos-emos na fronteira do dia selvagens belos e jovens pela última vez

do erro nascemos e o caos abraça-nos

quando chegas com a pele iluminada que transporta o mistério da existência os sons tornam-se surdos a fome desvanece o desejo evapora como só os oceanos conseguem
gritas pelas estrelas quando clamo pela noite ambos com o sangue a ferver no choque de corpos já conhecidos haverá um fim para isto como há um fim para tudo? arrastados sujos e vencidos novamente até à descida dos anjos oferecendo a redenção e toda a desolação do mundo exposta nas ruas como mares de plasma que mantêm as aves no chão ou impedem que o planeta prossiga a sua marcha para a destruição e

de súbito

só restam estas palavras gastas apagadas moribundas como as folhas de outono frias como vento de inverno ocas como a nação de sobreviventes forjada nas chamas dos objectos, incessante atracção pelo fogo interminável o metal que envolve a terra até nos distanciar irremediávelmente uns dos outros perseverança como monumentos sorridentes à solidão desunidos nas acções pequenas e presos nos grandes ideais, escassa inspiração geradora da última guerra

o campo revelar-se-á então como é – surgindo afortunadamente um último segundo de alva temeridade