a nós

quando o tempo é demais o homem é solitário e procura-se a si mesmo em tudo. quando o tempo escasseia o homem solitário esquece-se perde-se desperdiça-se em actos inglórios de desespero, espelha-se no excesso e no inconsciente.

o que vem a seguir? ou quem seguir? ou por onde seguir?

as palavras são demasiadas, as palavras rareiam em magia e em cada uma, uma âncora, solidão camuflada na luz e no ruído, causas erradas revolta mal direccionada. pode um raio solar carregar a esperança como pode a crueza dura e nua da noite assassiná-la impiedosamente. exposto diariamente a cadáveres o homem torna-se-lhes indiferente, sujeito involuntariamente à humanidade ganha-lhe ódio encontrando duelos onde não existem.

onde afirmar a humanidade incógnita senão na possessão e na ambição de substituir os deuses que se retiraram. incapacidade de existir nas horas mortas como se todas não fossem apenas isso: morte. impossibilidade de existir no presente, amanhã vencido e o passado corrompido pela falsidade, inventando amanheceres. dissipar o vácuo nos objectos transfiguração entrega à pureza da infância fabricada nas memórias que não existiram. e a liberdade só surge na intoxicação e ocasionalmente no arrependimento, desenhando-se saídas nos corpos alheios que dançam como serpentes e como serpentes se atiram uns aos outros, caindo como impérios roma atenas berlim lisboa madrid moscovo paris escravidão atrás de trevas sem fim porque o seu reconhecimento produz o medo e o medo entrega-nos à puerilidade da liberdade.

não é revolução que queremos, é a vida!

não é revolução que precisamos, é o jogo dos momentos como aquele em que tudo foi arriscado à revelia da ciência da probabilidade da lei da estrutura. a máquina é imparável, não trouxe consigo a terra prometida mas sim novos e falsos senhores. precisamos de frequente exposição à nossa pequenez face a face com a catástrofe, à nossa finitude face a face com as vítimas, à nossa impotência face a face com o universo, alheamento da identidade e escarificação do caos que governa o nosso repositório.

o além fica para mais tarde. a herança para os temerosos.

saborear a morte é abraçar a solidão é sorver a vida deleite na conquista na tentativa na derrota. abaixo as distracções às quais doamos os nossos preciosos e escassos minutos. existe um adormecido exército de escravos gratos pelo ouro dos seus grilhões. que despertem!

aprender o sacrifício com os antepassados, a dor com as mulheres, o silêncio com os filhos, a aceitação com o vazio. cada vitória trará um novo desafio infinitamente servos do desejo oceano de sofrimento tudo em demasia tudo em falta nunca a gratidão.

há um número finito de respirações, desbarata-mo-las quando nada se repete nada se perde tudo se transforma nada se repete tudo se perde nada se transforma, se ainda não esquecemos o que é a inspiração, em breve nos esqueceremos, essa chama vibra por detrás da matéria afogada em destroços. marchemos para o dia em que a carne será rasgada expondo o âmago no espaço público.

a nós o que é nosso.

a nós o que é alheio.

a nós o que é universal, a nós tudo e todos aqui e agora

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