aparição

foi em busca da pureza que nos deparámos com o abismo
o mesmo mantra aprisionando-nos nos braços alheios
cheiro a desespero e medo no mundo moderno e aceso
embriaguez como a nova salvação
desencontros com o amor e a simplicidade carregando peste e conspurcando-nos
é hoje que negamos o sono amanhã a dívida será saldada
é hoje que negamos o somo para que haja tempo para a evasão para memorizar cada pedra da calçada cada azulejo
antes morrer de fome do que não morrer

as minhas posses? deixo-tas
o meu tempo? abandono-o ao vento para que deixe enfim de ser ditador
e casa vazia? não é mais do que uma surpreendente ruína

os profetas apoderaram-se das esquinas e das almas de quem passa
o sangue escorre de homem em homem deponham as armas e rendam-se ao
apocalipse
só não deixes que seja a esperança a ditar
a jogada dos teus exércitos
temos que tomar o poder antes
que a loucura se apodere dos nossos corpos
deixa-me decorar o teu uma derradeira vez
pois é agora que aprenderás a negação e seremos verdadeiramente extirpados do reconfortante calor uterino

o chamamento feito há muito
viro-me finalmente para compreender a insignificância do passado
quando tu ainda nem nasceste

a nós

quando o tempo é demais o homem é solitário e procura-se a si mesmo em tudo. quando o tempo escasseia o homem solitário esquece-se perde-se desperdiça-se em actos inglórios de desespero, espelha-se no excesso e no inconsciente.

o que vem a seguir? ou quem seguir? ou por onde seguir?

as palavras são demasiadas, as palavras rareiam em magia e em cada uma, uma âncora, solidão camuflada na luz e no ruído, causas erradas revolta mal direccionada. pode um raio solar carregar a esperança como pode a crueza dura e nua da noite assassiná-la impiedosamente. exposto diariamente a cadáveres o homem torna-se-lhes indiferente, sujeito involuntariamente à humanidade ganha-lhe ódio encontrando duelos onde não existem.

onde afirmar a humanidade incógnita senão na possessão e na ambição de substituir os deuses que se retiraram. incapacidade de existir nas horas mortas como se todas não fossem apenas isso: morte. impossibilidade de existir no presente, amanhã vencido e o passado corrompido pela falsidade, inventando amanheceres. dissipar o vácuo nos objectos transfiguração entrega à pureza da infância fabricada nas memórias que não existiram. e a liberdade só surge na intoxicação e ocasionalmente no arrependimento, desenhando-se saídas nos corpos alheios que dançam como serpentes e como serpentes se atiram uns aos outros, caindo como impérios roma atenas berlim lisboa madrid moscovo paris escravidão atrás de trevas sem fim porque o seu reconhecimento produz o medo e o medo entrega-nos à puerilidade da liberdade.

não é revolução que queremos, é a vida!

não é revolução que precisamos, é o jogo dos momentos como aquele em que tudo foi arriscado à revelia da ciência da probabilidade da lei da estrutura. a máquina é imparável, não trouxe consigo a terra prometida mas sim novos e falsos senhores. precisamos de frequente exposição à nossa pequenez face a face com a catástrofe, à nossa finitude face a face com as vítimas, à nossa impotência face a face com o universo, alheamento da identidade e escarificação do caos que governa o nosso repositório.

o além fica para mais tarde. a herança para os temerosos.

saborear a morte é abraçar a solidão é sorver a vida deleite na conquista na tentativa na derrota. abaixo as distracções às quais doamos os nossos preciosos e escassos minutos. existe um adormecido exército de escravos gratos pelo ouro dos seus grilhões. que despertem!

aprender o sacrifício com os antepassados, a dor com as mulheres, o silêncio com os filhos, a aceitação com o vazio. cada vitória trará um novo desafio infinitamente servos do desejo oceano de sofrimento tudo em demasia tudo em falta nunca a gratidão.

há um número finito de respirações, desbarata-mo-las quando nada se repete nada se perde tudo se transforma nada se repete tudo se perde nada se transforma, se ainda não esquecemos o que é a inspiração, em breve nos esqueceremos, essa chama vibra por detrás da matéria afogada em destroços. marchemos para o dia em que a carne será rasgada expondo o âmago no espaço público.

a nós o que é nosso.

a nós o que é alheio.

a nós o que é universal, a nós tudo e todos aqui e agora

novembro

ninguém sabe mas temos uma guerra a travar
AGORA
que já nada há a perder
AGORA
que já tudo foi perdido
AGORA
que as vozes enrouqueceram em vão e os corpos foram sangrados até ao infinito

cubram-se os líderes e descubra-se o sangue nas palavras que nos revelarão a praia sob a calçada tragam a morte aos velhos que nos assombram há tempo demais
existe traição na ausência tanto quanto existe traição na presença mas irmãos tombam nos braços de estranhos quando mastins são libertados vidro contra aço aço contra carne abusada e a humanidade perdida no tempo perde-se na noite onde o fogo arde mas pulsa mais forte nas veias da revolta
não há saída? pois que se fabrique uma
temam-nos, a honra caminha a nosso lado
temam-nos pois a eternidade é nossa e com ela chegará a vitória e no seu abraço o novo mundo que nasce do esforço das nossas irmãs
são os números quem vence as armas quando abandonam a neblina do conforto pela dor fria da liberdade

ninguém sabe mas há uma guerra a travar
AGORA
quando já tudo foi perdido
oferecemos o corpo às balas, as balas aos símbolos, os símbolos ao vento, e o vento à fecundação do sonho que nos devolverá o controlo das ruas
é chegada a hora de testemunhar o novo dia

das cinzas às cinzas, do pó ao pó