ascenção

que o vento carregue os pecados para o terreno árido

como o teu ventre imaculado saboreado como a liberdade

porque não existem abrigos talvez miragens

a segurança foi só uma duradoura ilusão

os ossos estilhaçam-se e garanto-te que das estruturas nada sobrará eventualmente

por isso não te agarres não ames com o corpo que se desgasta

 

mas a tudo isso parece o mundo alheio para alem da divisão branca

na casa enganadoramente silenciosa quando ainda está alguém por morrer

onde ainda está alguém por nascer onde ainda está algo por acontecer

o desejo da intangilibidade livre de memórias

atravessando os acontecimentos como que fantasmagóricamente

a meio da noite fugitivo do sono

deambulando pela alienação

almas escarradas dum quadro demente

submergido pelo zumbido inquietante da electricidade

afundando-se como cinzas e pó

que somos sem o saber que somos sem o sabor

membros dormentes da casta limitada de gestos

reconhecidos apenas em objectos inimigos no caminho

 

as tábuas espalhadas sob a terra seca desviam-nos do abundante mato

indistinto e inidentificável como cada um de nós no turbilhão humano

gerando apenas velhas ideias

mecanicidade astros à deriva sem noite onde brilhar

sedentos insaciáveis sem refúgio

ou descansando vai a terra alimentando-se de nós

visão  das máquinas enterrando-nos por não aceitarmos os limites

a falência e a insónia da solidão

dobrando os joelhos dobrando as costas dobrando os braços

por deuses corruptos e fascistas sem alternativa

a  revolta será verdadeira quando for feita de carnificina no beco

sem saída

 

o início é foder

depois lutar,

talvez então

ascender aos céus

Anúncios

mais um ardil

relembra-me as palavras para quando não estás

no vesúvio da exclusão

como todos os velhos crescerei venenoso, mordendo, devorando, dilacerando

a eternidade é insiginificante

quando tudo está errado ou sobrevivemos aos inimigos

o sangue não assusta

porque estou inexplicávelmente vivo como a ferida que não sara

 

e falámos tantas vezes sobre o ardil que é o fim do tempo

mas sem alternativa e sem vontade

erguemos tudo à sua imagem

 

quando a indecisão era inspiração

o caminho era o ar revolto contra os objectivos

acalmia nas resistentes vilas e casas putrefactas

através da virgindade da floresta

na infinitude dos rios

aspirando à ousadia não aos troféus

 

banhavamo-nos admirando a juventude elástica do corpo

pele sedutora e fragmentada sob a rectidão da luz

agora temos rasgos e rugas sentados sob a luz fria

da cozinha como que rezando

fugindo das mesmas trevas para onde antes correramos

 

simplesmente

não sufoques o desejo, deixa-o explodir e infectar o que nos rodeia

deixa também a dor rebentar vagarosamente

por entre o desânimo dos rendidos

 

em todo o lado surgimos sem propósito

brilhando por entre tempestades nocturnas varrendo tudo da estrada

ininterrupta e bela a espera de ser amado

percorrido como só, o teu corpo sabe

chamar sofrer contorcer ondular por mais

é aqui o nosso lugar enquanto for

 

jogar a mão no precipício e o beijo apagado baloiçando no fio eléctrico