sujo

já não há nada a dizer

– não insistas, dizem inconscientemente

queremos ser arrastados pela multidão até um sítio seguro

onde os desconhecidos nos acolham com bebidas

e segredem poemas como num doce embalar de ópio sob a luz vermelha numa estranha divisão desligada da realidade

tudo já deveria ser indistinto e vago o suficiente para aprenderes a perdoar as camas vazias

que valem tanto como as armas vazias

levanta-te na noite cambaleante e expele

este local já é a tua história e de ti parte como uma cicatriz da infância

 

INSUPERÁVEL

 

até o suor surpreende

pode ser ódio ou amor

mas nunca tão doce como noites sem fim na finita juventude

 

 

INÁLCANCÁVEL

 

somos alcancáveis e finitos

retem-te neste abraço como o milagre que é

cada dia nasce cada dia morre e renova-se

ainda que se faça-a-mesma-coisa

será sempre de maneiras diferentes

até que estarás demasiado fraco para te ergueres

até que dependeremos de alguém como agora julgamos depender

 

as palavras são flagrantes as ideias são poderosas

porque tudo surge tão rápido

sem pequenosprazeres

 

Tudo é

SANGUE!

e nós sangramos

nós sangramos

cada bocejo e cada orgasmo

jamais assumas que algo é insignificante

jamais digas que algo é insignificante

 

não existe espaço para nós

aceita-se o que surgir, estará certo

plano

deixa o ar circular livre o ventre descomprimir

contraria os horários que forjaram para todas as nossas horas

 

como humanos somos fraudes esgotados pelas fabricações

que tornam a solidão da montanha crua realidade

o império de gruas e cimento assombra-nos distantemente

como uma fronteira de luz

 

sem conhecer o fim quem conhece o do mundo?

se os dias se entrelaçam nas noites

e tudo se repete sem nos apercebermos ou transformarmo-nos?

talvez um pouco mais fracos talvez um pouco mais unidos

desfaseados da magia mas há sempre a possibilidade de sermos invencíveis

no reino das ideias, se ninguém existir para o contrariar tudo se pode concretizar

 

perto, um trilho ao largo das ervas ocioso sem nada transportar

bela é a dúvida e constante a sonhamos quando nada o é

 

abaixo os ambientes estirilizados

abaixo os objectos permeáveis como nós o somos

apenas transladaremos para onde for o destino

porque nada é gradioso a não ser resistir mais um dia

onde se possa descansar e amar com o vagar e a saudade do navio que abandona o húmido cais de trevas

 

mas tudo está poluído e todos procuram abrigo

há que sair para as ruas e atingir o inesperado

odiar a certeza  que nos cansa

copular num bailad0 nuclear correndo perigo perdendo membros como numa guerra até à exaustão final nos fazer desfalecer

corre comigo numa demanda para libertar todos os actos de objectivo ode à inútil fecundação desprovida de realização

simplesmente o doce prazer de irromper pelos portões

abaixo o poeirento valor da mera procriação

tudo isso são cadáveres

TUDO CADÁVERES!

enterrem-nos

não os adorem

 

bebe o sangue cumprindo o novo país

na sepultura repousaremos

depois do sol se por alimentar-nos-emos

despertos antes da madrugada

 

tem tanto valor o acto quanto o frenesim do plano