possessão

erupção em coisas simples
sentir o ar no tronco descoberto
sem invulnerabilidade

não te sentes velho?
eu já venci isso e deixei o corpo
ao abandono
não me revejo nele
e soube que era velho
a primeira vez que a saudade me fulminou
mas às vezes cresço para além do tempo
esqueci-me tudo o que me ensinaste
falta esquecer tudo
se ao menos fosses como o comboio
que segue os carris sem o questionar,
a força que tem nasce da certeza
de não estar fundado em nada

cansámo-nos de procurar sítios
que não existem
onde os ruídos não nos despertem
onde o som da pele rasgando-se
ou das células moribundas
não nos atirasse de volta
ao familiar desentendimento

tudo desmoronou
e porque não aprendemos a saborear
a beleza fugaz
como a do orgasmo?
é corrupto este poder
que só deixa ser real o tangível
lutar
lutar até que a morte nos separe
pois é no corpo que está
a sua afirmação

POSSESSÃO

um círculo nasce em torno de nós
porquê a pressa?
não há como nos evadr
sem abraçar o cativeiro

termina a sua procura
não existe silêncio
é mera fabricação do oposto
existem sim, momentos
em que deixamos de escutar
mas as vozes não nos deixam
tu queres descansar
eu quero tudo

é docil esse teu sabor
e reconforta qualquer forasteiro
porque o sabes partilhar,
do mundo herdámos as dívidas
que teremos de saldar
não te apegues a nada
tudo será breve,
mesmo os grandes monumentos
serão engolidos pelo holocausto
para o qual cada atómo se dirige

talvez ainda aprenderemos a amar a impermanência como soubémos amar o que nunca nos pertenceu

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