quase

o ontem entrelaçou-se no hoje
não nos reencontrámos
agora que está frio acentua-se o isolamento
o sol brilha mas não para nós
paredes mais cinzentas desmoronando-se

sem saber o que esperar, esperamos
esquecemos tantas palavras
que já tiveram o poder de cimentar revoluções
quando a juventude era perdição
e a dor poesia
fome criativa empurrando-nos para a fronteira do engenho

a sombra que oscila
cobre e descobre
sem nada revelar
o vento que levanta a poeira
a poeira que somos nós
e não existem actos grandiosos
não existem actos irremediáveis
não haverá como sentir a falta
porque resistiremos ainda que
na forma de partículas
sem perceber os dias que correm
o oxigénio penetrando automatizado
e os escravos da possessão
QUEREM MAIS

querem sempre mais
degraus para o abismo
não há o que oferecer
não há como o possuir
só temos estes preciosos segundos
em que nos beijamos
ou que o comboio passa
isso partilhamos diáriamente
sorrindo quando se abate a solidão
ou sendo invencíveis
porque somos fracos
como uma projecção
que se descasca até ao medo
aproxima-te pois tudo é escuro
aproxima-te pois tudo é breve

aproxima-te só mais um pouco
pois tudo será vingança
aproxima-te só mais um pouco
para que me ensines a amar o vazio
aproxima-te só mais um pouco
e partilha comigo
ou nada terá valido a pena

Anúncios

compassado

sob o céu cinzento
os passáros planam em semi-circulos semi-perfeitos
as semanas esgotam-se urgentes e sufocantes
no desespero de mais
e todas as manhãs frias
atira-se água suja para os esgotos
a cidade incha sob a égide da transfiguração
fervilha de acção no movimento de união
não esmoreças mesmo que tudo passe por ti sem o agarrares
como num casulo funcionando-ecrã sobre os que partem

o céu torna-se púrpura
e o chão manchado das luzes amarelecidas
e as folhas que caem e eis que tudo se altera novamente

a hora é sonolenta esfregas os olhos como num sonho
sem a violência do despertar
e o vento súbito varrendo tudo como uma besta num filme antigo
toda a gente sem aparecer
os carros sem se ver
formam o som constante de uma urna
coça a pele em incredibilidade qual prisioneiro na espera letal

marcha lenta sem memória

e passa pelo chão restolhoando para te saberes vivo
atrás dos olhos omissão e terras por descobrir
o incompreendido e inconcretizável desejo de pura selvajaria
chove e já não se percebem as formas
ou visitam-se os locais subterrâneos
não percas o que já foste
não sejas o que já foste
as mesmas armadilhas
os mesmos receios
em poucas horas

ferro batido
caixotes oscilantes no chão
passamos de mãos presas
por aí e pelas baixas portadas
aqui não se conhece nada
não somos petrificados nos preconceitos