sina

quando se perde o sol surgem os insectos no chão seco e gretado
a pele clama pela luz tanto como por ti
o corpo arde e nele
nele sente-se todo um país à procura de trair a tradição
como se milhões de tóraxes se encontrassem em contenção
sustidos aguardando o momento certo para respirar
profundamente profusamente
ainda doem os membros e o despertar é sempre o mesmo
repetindo-o até à impossibilidade

por entre o tédio manufacturado
revela-se plena a tua matéria
flutuante como o desfrute de um dia fresco
somos cansados, até a luz parece fútil ou gasta
haverá ainda rasgos de inspiração?
súbitos e arrebatadores como obsessões adolescentes?

são incontáveis os gestos repetidos
sequencial e programadamente
o descernimento enterrado
a verdade semeada nas ruas
na água suja que se varre para os esgotos
no suor que se limpa da fonte
nos fluidos que se descarregam nos estranhos
o vício, temo-lo nos objectos duráveis
e no reflexo exterior
se nos despenhássemos repentinamente
sem ninguém para nos carpir
sem herança que não
inuteis prisões
momentanêos caprichos
e nem num só segundo fomos
inflamados pela verdadeira paixão,
obsecados pelo final
superar momentos na expectativa do seguinte
deixamos rasto
NÃO DEIXAMOS MEMÓRIA
deixamos rasto
NÃO DEIXAMOS MEMÓRIA
imagens soltas quartos vazios conversas desconhecidas falsos desejos

se somos algo, é só a viagem
jamais o destino

somos apenas a viagem
nunca o destino

tanto que a minha semente viaja-te no âmago
como eu terra dentro
como a terra dentro do olho do gigante
até que algo seja
acolhido

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tríade de Thoinot

“há que reconhecer a impermanência” diz alguém enquanto respiro profusamente contra a parede de tijolo,incompleta surge uma recordação súbita como se brotasse sem vestígio
daqui vejo a curva da rede (existem sempre redes) rompendo o céu hoje azul e friamente se assomam os limites das coisas frente a todos enquanto as estradas serão sempre o nosso símbolo a nossa união por sobre as costas do mundo por entre as florestas cidade dentro ainda que seja falsa
quando encontro o sono semi-desisto deixando o tempo governar a mão, os músculos revoltam-se de cansaço: “não lhes ofereças o ócio”

e se alguém ainda se lembrasse como explodimos? e o orgulho que isso foi porque nada existe para ser enfrentado, este medo e desejo não são teus pois crescem da inveja, o nosso motor é o tédio para toda esta construção fálica ou semi-endeusada de estruturas de metal e formas carnais onde todos nos alojamos e ninguém é inimigo

porque nos olham com estranheza quando procuramos a solidão nos aglomerados e os montes que são fábricas e os pirilampos que não reluzem e que nojo ganhámos da fuga que o homem faz das trevas na vã cruzada de iluminá-las como se houvesse lugar para a salvação quando nem o castigo sobresiste já, os arcanjos não executam mais as guerras celestiais, então dispo-me à porta de madeira com a saudade e entramos ambos no rio, a semana terminará e se os deuses o favorecerem encontrar-nos-emos de novo sãos e salvos para outro dia, rodeados de pedra e inspirados nos antigos mitos do culto dos mortos que sempre tiveram a razão consigo e nós somente tivemos o cheiro a medo

brecha

antenas que irrompem do solo como o ameaçador eco do vento ao longo deste chão seco sedento de oferendas
uma mãe pronta a acolher as bandeiras da discórdia sem vergonha como o soldado gasta o soldo sem culpa em jactos premeditados que mantêm as coisas no mesmo lugar

os deuses antigos são já poeira da mente envolta em ócio
o corpo também é um desconhecido mas não o que se procura
queremos também um corpo!
desconhecido, onde se possa repousar ou, cedendo ao desespero, violentar

escuta só esse impulso de destruição
belo e irascível
que ainda não aprendemos a canalizar
a deixar fluir e moldar o planeta à maneira singular do caos,
a não ser em pequenos actos que geram arrependimento,
conseguimos uma pequena amostra de monumento
e agora que as horas são felizmente vãs
entregamos o tempo à preguiça
com os companheiros igualmente derrotados
pois é esse o único modo de escapar à doença
tresloucadamente ou num qualquer vislumbre de loucura
onde se possa renascer

só queremos o tempo que já azedou
ser Mestres do Sono
madrugar nos cafés por popular
pernoitar nos bares abandonados

somos o Sol lânguido
para poder desertar da pressa que nos foi tatuada na mente
mas não havendo como nem onde
e quando tudo se vende empacotado
tudo existe em abundância
as lutas que se tornaram tão irrisórias
que achamos poder reescrever a morte
mas contemplando o calor doce lá fora
percebemos que
nada existe que não tenha já sido derrotado perante algo