servidão

como se fosses uma ampla e vazia planície
estica-te a meu lado
cada segundo uma nova paixão balançando no risco balançando na surpresa
a minha pele envelhece sem mim
arrasto-me para o mesmo café para as mesmas conversas
como se fosse uma tatuagem antiga

hoje é um novo dia
há que dizer algo novo
para não se morrer já
há que ver as coisas com novos olhos
para não se morrer já
porque a doença não te atingirá assim
porque a separação não nos rasgará assim
ainda que a independência seja um farol nas trevas,
ninguém deve ser escutado quando ainda existem tantos segredos por saber

derrotarás algo para saborear a falsa imortalidade
repetindo então tão azedas banalidades que nem a embriaguez nos elevará mais,
soframos antes o vácuo onde podemos ser a madrugada
e a lua reflectidos na placidez dos lagos
desmembra o passado recorda o passado
libertando o corpo da prisão de desejo e dor

invejámos a imutabilidade até a saber ilusão porque tudo é dança-da-matéria corrupio anárquico
obsoletos significados imputados à linguagem e quem se pode rever nesta assembleia de carne? no sangue ou nas veias?

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apneia

cercados pela noite cerrada
irreconhecíveis e acima de tudo importantes
há que nos alimentar ou então sucumbir
erguermo-nos nos prazeres básicos
possuíres-me primordialmente esquecendo esta falsa evolução e
rebentando em bestialidade

sustem comigo a respiração
agora que todas os astros cintilam
como o bafo do sonho e o seu corpo quente
talvez consigamos que nada mude ou talvez consigamos que tudo mude
uma revolução menor como quando
retornas a um sítio depois de uma longa ausência
e a tua memória é destruída pela realidade como se fosse uma mera cortina de sono

não fiques à espera de liberdade
pois só chega com a dor
invade o ser da mesma forma que os operários invadem os bordéis
ou como eu te invado nas trevas do desejo impronunciável
nada faças à espera do seu fim
porque cada fim é corrosão e vicio
e mais uma queda para nós,
habitantes do abismo
não procures a compreensão
desfruta o véu de estrelas
projecta-te em quantos cumes conheceres,
mesmo quando tudo é desespero
a tua força estará na certeza
de que nada é real
e todo o sofrimento é sob a carne
mas não no sangue
só tens que naufragar ao sabor da beleza do átomo

resiste e vingaremos!
mas não temas a solidão
ela é oca e parte-se

teremos o renascimento
senão podes sempre descer a avenida mais movimentada de todas

poente

esta tarde somos fome
despedaçando-nos em farrapos
esbirros submissos e líquidos
pelos jardins encobertos e húmidos
só te revejo na mesma paisagem de cimento
e existe mais que somos incapazes de compreender ou experimentar

jovens são os prisioneiros dos supermercados e dos aviões
velhos seremos nós quando desligamos do mundo
tudo será perdoado na tua nudez
no teu odor
violentamente cristalino como o renascimento sob o néon
rejeitando esta carcaça gasta despojando a história e sofrendo pela novidade
a reinvenção não chega e deixa-nos imutáveis
quando o engano é breve a decepção é tumular

pergunto se te lembras de alguma vez em que os carros não tenham percorrido infalivelmente as estradas que como a tua alvura brilham melhor na solidão sagrada do desencontro com deus na vontade mútua do deserto porque ele não distingue os seus e tu erras porque o erro tem de existir como a morte tem de existir e acontece nas tuas células acontece nas minhas partículas diariamente e nem o reino da intoxicação nos curará
somos inevitavelmente irrisórios o que permite a liberdade única de agir inconsequentemente por isso a tentativa falha ou não tem sentido mas quando o planeta do acaso se revolve sacode-nos como sono e a gravidade rejeita-nos

somos a fome pelo menos ate à tua ausência ou este lar ruir ou eu respirar tão alucinadamente que expludo e evaporo na atmosfera enquanto tu contemplas o céu como quem vê manchas na parede rezando ao mesmo tempo porque é esse o modo mais antigo de falar ainda que para lá da fronteira não exista quem te possa escutar então cais para o abismo porque isso é vaguear
ainda não nasceram as consequências porque não foi descoberta a acção
é imperativo o presente porque não sabemos distinguir a realidade e na carência da fé sobra o vácuo assim
seremos só os dois na cauda do cometa

Espirais

cães no sangue a ferver
saímos vítimas do ritmo frenético que agita toda a cidade engolida por dias
leva-me onde exista pureza
mesmo na violência que extirpa todos os males
aqui o reino do silêncio salvo os ecos longínquos
e decrescemos sem o saber
agarra o momento de sol na colina ondulante pois
a haver inimigos estarão ao longe
reconhece-me em alguém bom
livre de cicatrizes
e já não seremos senão esperança

“não tens a sensação de repetir a mesma vida todos os dias e que imperceptívelmente te vais apagando?”

ainda nem atingimos o medo menos ainda a morte
senta-te afogada entre o branco da cozinha na dura madeira embalada pelo zumbido eléctrico do frigorífico e bebe comigo sem olhar pela janela por onde os outros agonizam a paz e instilam o nosso ódio e eu sei que sou mesquinho e vingativo como os outros insignificantes demónios tresmalhados mas só violando a santidade da pele sinto a vida borbulhar no interior

quando o o desejo explodiu em pedra cujos estilhaços atingem tudo em nosso redor desregramos o passado

o relógio grita agora dez horas e sai fumo do chão porque somos demasiados e demasiado jovens para sorver a dureza da dor semeada
alimentamos os animais vadios com os nossos próprios ossos e partilhamos o plasma como uma ceia final
apressando-nos sempre sem razão definida e tu tens a saudade do teu lado
eu regrido sem lembrança e
quando regressamos?

tudo permanece

tudo permanece
e aprendemos como os que não possuem alternativa
a absterem-se do fascismo quotidiano
da nossa casa ser de betão
de que o coração cessa de bater sem aviso
e a escassa beleza que sobra
esvai-se com tanta fragilidade
como a respiração

quero carne fumegante
e exércitos sobre ti
quando te horizontalizas
pequena e breve
fantasia totalitária

O desconhecido

o chilrear e o eco devolvem uma gigantesca dimensão ao espaço
suficiente para perdermos significado

surges com os olhos ainda mergulhados no sono também presente no odor
embora chova descansamos com os estores semi cerrados semi embrulhados numa escuridão imprevista
janelas oscilantes e gotas batendo com fome misturada intercalada por breves assomos de luz súbitos e trêmulos, por vezes imperceptíveis

deixo-te embalada no repouso enquanto saio para sentir o chão movediço sob os pés, ver os cães abandonados subverter os pensamentos quotidianos caminhar no monte onde o vento assobia as casas arderam ou apodreceram onde todos partiram até a história  se encontra soterrada e atravessamos na beleza da claridade dum segundo específico desta tarde quanto tudo parece inundado de perigo descolado duma existência fabricada –
– suspiramos de alívio
– eu suspiro de alívio defrontando-me finalmente com o inexplicável

as nuvens torneiam infantilmente a verdejante colina onde as seculares fábricas familiares permanecem imunes à mudança e a roupa nas casas de tecto baixo baloiça severamente às mãos de um vento com milhas para onde crescer

alguém pergunta se ficaremos aqui esquecidos mas logo surge a fome ou o hábito de nos vermos reflectidos em tudo em particular no falso e somos a ilusão na força do abraço na fúria do leito que nos espera com fervor religioso

tudo emudece e não existe espaço para nada
agradece, este, agora
bebe e conforta-te resistimos sem vencer partimos sem sair mas saboreiam-se os lábios e os dentes através da língua
aceita o desconhecido pois ele ama-te
aceita o desconhecido pois ele toca-te deseja-te e
faz-te vir