inércia

a estrada cresce sem nós
porque somos o nada
escreve-se devagar como movimentos distantes
o tempo que arrefece
o vento que assobia
numa montanha de solidão encosta escorregadia e plena de sombra
sem a qual não se percebe o fim
tanto como o serpentear do corpo reboliço de cristal
implodindo em luz nos becos
benção dos desafortunados e também minha
prolongando-me em violência

sabe que superas tudo
que não existem respostas
e a maré devolver-te-á sempre a mim
ao longo dessa encosta muda e histórica dentro do temporal,
abertas por entre o crepúsculo
as trevas
onde nos enamoramos ou desertamos

não dormir ou comer como se a própria invulnerabilidade
marchasse sobre o chão onde desistem os moribundos
sem as horas passarem

deixa a cortina fechada baloiçando provocadoramente em
flashes intermitentes
e adivinha o exterior
na antecipação na desilusão
se acordares na ilha do sono
tudo fluturará descoordenadamente
talvez seja isso a liberdade
mas escoa pelos laços fora pelas teias
colidindo com pequenos objectos naufragantes
compassados pelo burburinho maquinal incessante
que não nos solta
embalo adjacente ao ritmo da linha de produção
e na mente exterior o agravamento o encadeamento
do acumular de palavras-ideias-memória
desgastando até a rotina até o memorial
chegando as dores serão só uma nova rendição
mas enraivecidos pelo furto e pelo vazio oco que nos deixaram
chegará, então, a hora de agir?

“eu ajo” e envolves-te no próximo corpo
esperando a revelação
quando recebes apenas um novo anonimato
os beijos perdem-se ou então
perdem o significado
desencontra-mo-nos sempre
lágrimas e pedra fundidas
o medo dos outros materializado em inércia

Ainda

através da parede os operários gritam assumindo a engrenagem
camiões descarregam uma outra realidade despindo o lugar de abandono quando as ervas subjugadas pelos passos são disso a evidência

a ribeira que ainda tem o mesmo curso recebe por vezes um breve relampejo do sol enquanto o trabalho prossegue como um hércules metalizado como o teu corpo marejado como a janela que nos provoca com o mundo intocável e sem prejuízo sobretudo nos dias em que tudo é curto e os beijos são tão escassos como a comida que os cães vasculham mato dentro

na hora de jantar não comemos na hora de dormir não dormimos desfalecendo como a entrega pura sob a luz imaginando slogans ou despindo clichês  até quando nada nos agrada as coisas são cruas e reais demais para nos amarmos e os anos que devemos ao sono e o dinheiro que não temos?

Regresso

dispersos como flores ao vento em oscilação perpétua
movimentações em colunas dessíncronas
mar envolvente e impeditivo de estagnação

sem um só ponto fixo
e ainda se ouvem os ecos
duma época de imaginação extinta antes do nascimento,
aqui e além sons despertos surgem
e logo se evaporam insuficientes
para uma afirmação
assim é o aviao que sobrevoa a paisagem deslocada de castanho e verde
campo de sonhos desconexo da realidade

um sol mudo aquece-nos a pele até ao esquecimento
quando já não resta nada
somos só uma sensação cálida
vencemos mesmo que timida ou fugazmente
tanto que essa compreensão só nasce anos depois
de cada momento evaporar
e se não tivesse destino ou trajecto
poderia perder-me nas palavras na linguagem
forjando uma outra realidade
onde seríamos os Senhores do Tempo
assim somente se furtam minutos
sem nos projectarmos firmemente neles
sou uma semi-existência
não-rocha/não-água
desgastando-se

o ambiente é sumido se bem que grandioso
numa espécie de incompreensão comum
apenas acerca do fim do horizonte
somos recordados das grandes cidades
ao avistarmos as torres que violentam
a santidade do céu,
não há destino final
agora objecto desmistificado da conquista

os postes ligados por longos fios
emprestam a noção de distância
e evocam memórias de viagens passadas
sem recordação de partida ou chegada,
mera absorção quasi-monótona
mas infantilmente mágica de suspensão física,
árvores interrompidas por postes interrompidos por árvores interrompidos por postes
campos infindáveis insondáveis
nostalgia mito da morte
comboios apitando gente movendo-se lentamente
nas bermas cafés em pedra e madeira
neons empoeirados cães pulando entre flores ocasionais
bombas de gasolina

tudo brutalmente esmagado
às mãos da dor
do não-regresso

Rotações

as máquinas são o império que circunda todo o sítio onde vamos
periferia ruidosa e imparável avançando por entre os espaços
mas há calor suficiente para sorrir e beber na esplanada perto da barraca de madeira
mesmo que o sorriso seja engrenagem e o momento desesperante pois
em breve a noite sufocará tudo e não mais nos reconheceremos

tão perto da loucura estéril
tão presos à espera e à esperança vã
nos futuros que não germinam
sentados de costas voltadas
respirar-maquinal torneados por terra e tijolo
sem sentir o desejo do corpo sucumbimos
aos malefícios do mesmo modo que redesenhamos olhares
em obsessões até serem estas a única matriz

os edifícios que nos acolhem no ventre insistem na permanência
e nós na brevidade, só conseguimos esquecer
por aqui tudo ser imutável
tudo menos tu
retrato empobrecido de tudo o que foi habitado,
aspirar do fumo do cigarro
luz pontual dos candeeiros amarelados
palavras entarameladas
beleza da toxicidade
violência da paixão

os ruídos cessam e aparentemente tudo se altera
mas o vento assobia frio
os mortos não se erguem das tumbas
ainda somos os mesmos
o velho mundo exerce o seu magnetismo
mantendo-nos na sua teia
com a nossa subserviência,
só não possuímos tudo o que se passa ao longe
a menos que se encontre
nos ecras distribuidos a cada quatro paredes

Jejum

dormes ainda na manhã flutuante quando o meu sono já foi derrotado contra o branco dos aluzejos da cozinha e lá fora o céu cinzento amedronta a paisagem já de si tímida de tão verde

perdemos a conta às manhãs e à imutabilidade da vista como um naufrágio toxicómano no tempo húmido e abafado fustigando a pele aprisionada em recordações de longínquos verões que provavelmente não existiram mas onda uma figura feminina de àgeis movimentos oferece uma forma voluptuosa frente à inocência sem consciência, seios baloiçantes como uma revelação e então o erguer do sacrilégio acontece

recordação sem sonoridade mas explosão de cores fui aqui abandonado com ela deitado esmagando a relva não exactamente num repouso nem mesmo em agitação

amanhã repetem-se os acontecimentos de todos os dias implacávelmente morremos nos braços um do outro com o corpo mais firme ou menos firme mas o mesmo corpo mas outro corpo certamente mais decadente em busca da espectacularidade dos minutos para que seja sorvida em tranquilidade no refúgio

felizmente ou sôfregamente as horas avançam calmas e imperiosas longe do sofrer do tempo que avança tudo desligado longe do reflexo nos objectos sem perceptibilidade

a ribeira secou as crianças saíram dos parques ainda a matéria não atinge o fim do dia nem de qualquer outra coisa despimo-nos para apreciar as transgressões de beleza que investem o receptáculo que nos sustenta face a face com um cruel espelho onde o auge da luz enaltece
as marcas dos excessos
as marcas do amor
e nada nunca cicatriza

nem a inevitabilidade da extinção, sobretudo não a inevitabilidade da extinção mesmo quando nos encontramos em erupção ou surgindo na liberdade
as prisões são pequenas, mas demasiado numerosas