Tudo procura ser imemorial mas nada o é sem insistência

a luz transfigura-se de modo célere
em fugazes relâmpagos
por entre a copa das inúmeras àrvores
enaltecendo cada ondulante fio de cabelo
que forja auréolas,
criam-se anjos em nós gastos
secos do fumo como as paredes
das tascas mais cansadas

embrenhados na floresta
como assassinos na cidade
incólumes aos estranhos que não nos confrontam
sem gastar tempo
perdêmo-lo
em pequenos gestos insignificantes
mas imponentes na réstia
que cada um de nós é

dentro do carro também separado também cansado também velho
e agora tão apressado como nos tornámos
procurando a máxima velocidade
em direcção à obliteração
até que a luz se torne
uma mera mancha arrastada
até que reste apenas a sombra da noite

o país é um animal disforme
feito de caminhos que se dividem
de algures para nenhures,
exploraremos todos até
ao território desconhecido
descampado rejeitado enfeitado
por lixo e dejectos
paisagem árida maculada pelo avanço
sem as entranhas revolvidas
sem o coração a descoberto

vamos para o quarto do esquecimento
despirmo-nos até sentir na pele
a aspereza do ar
a estranheza do lar
que desconhecidos habitaram e
fugir antes que nasça a familieraridade

tenta vencer o sono
até decorares todos os pormenores
como faço com os corpos e com as palavras

tudo procura ser imemorial mas nada o é sem insistência

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