Sunnia

os copos ficaram vazios sobre a mesa de madeira, vazio ficou o bar
roto num império de eco
congelado na marcha temporal
já nem as chamas das velas queimando o que restava do ar se moviam

existiam algumas conversas alheias enchendo o espaço das quais se percebiam palavras soltas
tu recrias-me eu recrio-te na noite que não dura no fim que perdura
visitando locais inóspitos mesmo na sobrepovoação do mundo
dizendo frases até então desconhecidas e sobretudo
conversando sobre banalidades com os desconhecidos que parecem rolar no asfalto

morremos sem o saber
em cada célula em todos os átomos e não sabes da solidão
sabor intempestivo como as trevas que nos sorriem ou asfixiam
e logo mesmo que brevemente surge a vingança do corpo ou
o sentir dos mundos

circundando-nos os comboios ou os navios
e a multidão suspensa sem momentos definidos
devorando-se através das imagens/palavras decaindo
auto-alegria delineada na masturbação alheia dos produtos
galerias de parteleiras coloridas
rótulos brilho reprodução da divina aspiração

podes um dia entrar em casa sem a reconhecer de mim resta apenas a sombra marca na parede que se vai alargando como uma prece ao longo dos anos até sobrar apenas o ranger da madeira do chão e das portas perras mas agora há mesas abundantes e o calor das pessoas

tempo e liberdade para gritar as ideias

sem revolução não há amor sem amor não existimos
mas com atenção verás que todo o movimento há muito cessou temos amargura e solidão onde havia juventude e poder e uma fadiga contagiante ao toque revela os cadáveres infâmes que somos unânimes

sou a saudade sem a conhecer
só a forma do desejo abstracto
só abandono e miséria e ruido insustentável em cada presença

se o amanhã nos receber haverá mais dor para acolher

ossos para moer e gente para enterrar

serei ainda um impostor embora mais decrépito e devoto da escuridão

e nas ruas a chuva
reflexos fantasmas e espectros
mas nada tão verdadeiro como as imagens projectadas

esta tarde esvai-se sem certeza da seguinte

o dia explode em antecipação
nas pontas dos dedos na ponta de cada cabelo ambos ondulantes por razões diferentes

é secreta a razão que nos sustenta tão secreta de nós mesmos como o somos um do outro
como parte da parede silenciosa e semi-eterna compartimentos esmagados numa dimensão maior

respira esta ansiedade que povoa a nossa noite, etéra superficial e estática
só existe devido ao regresso do amanhã armadilha material que habitamos em despedidas e ausências e todo este cansaço torpor ou algo que desgasta é tão real como os olhos que absorvem a circundante estranheza chega o frio e a pele eriça-se no chamamento do conforto ou a ditadura das horas que não conseguimos superar mas almejamos a fazê-lo demasiadas vezes em demasiadas insónias demasiadas vezes insensívelmente
os amanhãs repetem-se sempre nos dias seguintes numa cadeia impossível de conter mesmo com a esperança que resta mesmo com a coragem que resta
sucumbiremos estrondosamente num inesperado acto violento oferecendo esgares de estupefacção?

sabes tudo aquilo que não podemos dizer durante os dias?
di-lo agora como se eu fosse todas as pessoas esquece os objectos esquece o tempo como se fosses a própria força

acordamos bruscamente de um pesadelo que fere como só a loucura o poderia fazer, em golpes de misericórdia cavalgando a rédea solta numa era que não a sua pois nenhuma o será infectando a seriedade acumulada na roupa e nas expressões
ocasionalmente sobrevivemos numa vontade de palavras até chegares em choque e tremor eu irrompo como a secreçao da bilis voyuer do animatógrafo brutalidade policial pecaminoso sémen ódio bélico fecundando-me numa pura visão de santidade mancha de sangue doente desfalecer prazeirento
eventualmente acordaremos para a última manhã sem aviso sem odor tanto por cumprir mesmo nos ossos mesmo na carne mesmo no suor um do outro deleite no ócio degredo no lar que já não habitamos nem a queda permanecerá sem as amarras da história para suster os momentos

esta tarde esvai-se sem certeza da seguinte

Tudo procura ser imemorial mas nada o é sem insistência

a luz transfigura-se de modo célere
em fugazes relâmpagos
por entre a copa das inúmeras àrvores
enaltecendo cada ondulante fio de cabelo
que forja auréolas,
criam-se anjos em nós gastos
secos do fumo como as paredes
das tascas mais cansadas

embrenhados na floresta
como assassinos na cidade
incólumes aos estranhos que não nos confrontam
sem gastar tempo
perdêmo-lo
em pequenos gestos insignificantes
mas imponentes na réstia
que cada um de nós é

dentro do carro também separado também cansado também velho
e agora tão apressado como nos tornámos
procurando a máxima velocidade
em direcção à obliteração
até que a luz se torne
uma mera mancha arrastada
até que reste apenas a sombra da noite

o país é um animal disforme
feito de caminhos que se dividem
de algures para nenhures,
exploraremos todos até
ao território desconhecido
descampado rejeitado enfeitado
por lixo e dejectos
paisagem árida maculada pelo avanço
sem as entranhas revolvidas
sem o coração a descoberto

vamos para o quarto do esquecimento
despirmo-nos até sentir na pele
a aspereza do ar
a estranheza do lar
que desconhecidos habitaram e
fugir antes que nasça a familieraridade

tenta vencer o sono
até decorares todos os pormenores
como faço com os corpos e com as palavras

tudo procura ser imemorial mas nada o é sem insistência