Cadências

O delírio de quem
se afoga em néctar
numa fumarenta e
bafienta catacumba
onde caoticamente
se espalham
voluptuosos corpos

carnes de seda
arrebitadas pestanas
lábios de sangue
seios empertigados:
um completo conjunto
recostado na madeira
castanha do balcão
como o felino
que alivia a sede
girando a cabeça
percorre sem ver
um olhar indiferente,
estremece o observado,
prolonga-se num silvo
o som de cordas
o som de sopro
às vezes sussurro
às vezes grito de banshee
marca no espaço
a percussão,
o movimento de tudo
como se rotação
pés apoiam as
mãos que carregam,
saltita a bandeja
no chão xadrez,
coberta uma tez escura
por fatos recortados
generosas golas
padrões verticais
encontram em lábios
carnudos o centro
do ser e é a música
tocando ou não
o som do universo
da etnia e cultura
que misturam sofrimento carnal
com ligeireza espiritual
o mundanismo mais baixo
com a mais altiva espontaneidade
tem a força das entranhas da terra
tem a liberdade de poder lutar
contra escorreitas mas pérfidas amarras
tem a soltura da musicalidade
nos passos nas ancas na voz nas mãos nos pulmões no berço
de toda a humanidade
criação criatividade
e a música, sempre ela
nunca se prendendo
viajando como se
o tempo e o espaço
barreiras não fossem
água nos canos
desfaz liquefaz refaz constrói configura transfigura imigra transmigra
fogo agua céu terra
vai subindo num crescendo
serpenteia chilreia
como se dentro estivessem
passados e futuros
impusesse uma construção
de potencial imensurável incontável
ameaçando explodir
numa dança colectiva
como estrelas no firmamento como nuvens no céu como mortos na terra

vão chovendo
destroços estilhaços bocados ruínas restos
cada vez mais freneticamente
o frenesi rodopia
como furacão da criação da evolução da extinção
leva tudo consigo
absorve interioriza come devora
até não restar nada
nem vazio
nem ausência de vazio
apenas uma gigantesca massa bailante,
ser a unidade
e de repente num momento menos que um momento em que tudo foi suspenso

TUDO PÁRA!

e desfaz-se então tudo
tudo evapora tudo cai tudo quebra
dum modo amoroso e violento
e tudo retorna a um novo lugar a uma nova forma
música prossegue
e acontece algo diferente ou acontece a mesma coisa ou nada acontece
ninguém se apercebe ninguém se aperceberá
porque
acorrentados
olhos cerrados
ainda que se movimentem
ainda que contemplem
mas sem ver nunca
quando tudo muda
assim como essa eternidade
não começa
inicia-se e não finda
rebenta
finalmente
o relógio empurra o sol
gruta dentro
finalmente
o coito termina
finalmente
já ninguém existe
a não ser o quotidiano
a não ser o banal
a não ser o matutino
a não ser o laboral
a não ser o mundo lá fora
e uma casa vazia
de paredes sujas
copos vazios
beatas abandonadas
e a promessa de
ser embalado numa noite
em que tudo
se estende
se distende
se estica
sob o comando
duma improvisada melodia

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