Devagar

No campo aberto
sob um céu mortificante
domina a cultura
do jogo de ameaçadores
estátuas ao longo da visão
como soldados feridos
numa qualquer batalha,
sobrevoados por negras aves
cobiçados por abutres,
interrompida monotonia
por longínquas e indecifráveis
notas de qualquer escala urbana
ribombando ao longo de vales
semelhante ao cantar onírico
acompanhante da vítima

ao longo do dia
imiscuindo-se
enevoando-se
o tom de realidade,
tão pesado o tempo
que congela e
os minutos adquirem
o estigma da sonolenta
e mecânica repetição
o invisível toma-se
por falso e o
visível assume a
indefinição duma recordação
na qual se medita,
caracterizada por tão frágeis
nuances que apenas alguns
lhes assentam certezas
ainda abaladas pela dúvida entre
o absolutismo da imutabilidade
e a possibilidade da perdição

perde-se o sentido
da carne
do sangue
do prazo
perde-se inexistindo
algo confrontado com a extinção,
transforma-se e
recolhe-se para
um remoto conceito
residente não-aqui,
a erva cresce
flores desabrocham
montanhas imóveis
animais corredores
senhores do som
o chão sob si mantem-se,
pilosidades progridem
resistências persistem
como a queda virgem e
o beijo de abertura,
perece apenas a forma
disforme e difusa
duma ilha na mente
ou lembrança
ou ideia
absorvida ou concebida,
pertence ao mutante
decora pele,
onde céleres são as nuvens
a mais firme composição
assente na mais certa firmeza
o campo que não gira
o solo que não é infértil
o corpo que não é decrépito
a beatitude suspensa
da tarde de verão que
morre no pestanejar

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