Desertos

Quando tivermos de
devolver tudo o que foi roubado
e a terra engolir
ídolos e troféus,
quando as maravilhas do mundo
se afogarem na lava,
quando o passado for
uma incerta recordação
sem vestígios,
quando o ciclo se completar
o que permanecerá de nós?

matilhas de cães correrão
como exércitos disciplinados
pelo meio de estilhaços
e restos, o seu latido
ecoará como trovões
numa paisagem esculpida
a interrupções

e o nosso amor sem rasto
e o nosso amor sem efectividade
encontrar-se-á espalhado
por toda a parte
os restantes serão
apenas árvores mortas
rebentados por fora
vivos por dentro
perecendo de pé
numa constante jornada
ininterruptamente
sem ponto de partida
sem destino
sem objectivo
evitando a permanência
para encararem sempre
a mesma monotonia
aborrecida semelhança global
até à indistinguibilidade de
percorrer países ou anos ou
estagnar no mesmo local e momento
a morta paz e o silvar do silêncio
como ruído de fundo do
local uniforme com
intervalos esporádicos pela
cantiga do desespero
contida no gesticular
brutal da solidão
do empunhar armas
de fugir
do esgar nostálgico

florescerão malmequeres
no asfalto e heras
cobrindo o betão
ervas daninhas que
decoram o mundo por
entre uma raça de
parasitas que evoluirá
para romper a rotina
de céus carregados de nuvens,
coabitarão tempestades das
cinzas dos mortos com
estrelas que se aproximam
do sol promovendo as
chamas do inferno
os resistentes ajoelhar-se-ão
rezando apenas pela força
do hábito e para encher
o ar oco de som
na colheita da morte
não existirá sexo e
não mais existirá
paredes e tectos
ou populações,
jamais existirão nações
hinos ou ouro e
gente em número
suficiente para guerrear
a arte será o arrastar
das nuvens
o vento nas searas
fantasiosas solidões
estradas infinitas
puzzles estruturais
o eco da morte
na natureza
o bater do mar
nas rochas
a agonia dos
relâmpagos no céu
rios de lava

abolida estará
a mortalidade
pela ausência
do tempo contabilizado
e pela ausência
de consciência
montanhas perdurarão
na sua quietude e
rios desaguarão
em melódicos oceanos
areias reconfigurarão
belas esculturas ao
sabor do vento
desligados
demitidos
impedidos
de tudo
pelo qual se definiam,
os remanescentes
serão o apêndice
de uma galáxia,
entidade suspensa e perene
imaginada por
um deus que desertou

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s