A fome

a marcha da humanidade sobre o mundo
cáustica inexpugnável aleatória insignificante;
vais sendo desenhada pelo meu olhar
na santidade das pequenas e íntimas conspirações
a liberdade dos corpos faz florescer
a liberdade dos movimentos implanta
a liberdade dos ideais  ancestrais e ainda por realizar

os objectos imaculados, destruamo-los!
romper laços com o tronco do planeta
matriz da existência,
obsecado por uma ideia
preso a um comportamento,
o herculiano esforço de superar a rotina
ceder preciosos e irrecuperáveis membros
para suprimir a fome

difícil é encontrar a exclusão
os mundanismos que se colam a nós,
descortino o inexpugnável mistério
no oprimido passo das massas laborais
a formatação que se sofre

observa a espontaneidade das crianças
(conhecimento sem consciência)
observa a fluidez da loucura
observa o ar que envolve os que rejeitados,
este caminho está à muito gasto
vendeste-te a mim vendi-me eu por ti
sei que rebentaremos de fúria
e a fogueira perfeita no entardecer
abraçará toda a nossa herança

vês, como eu vejo
o reino da mentira
o sorriso do embuste?
e cedes como eu cedo,
adiando a catarse
envelhecendo, entrando na decrepitude
a esperança que nos rói como
cancro

corta as amarras que te impuseram
quando desfalecemos neste lodo
à deriva nos braços do horizonte
no plácido mar
no ruído que embala infantilmente.
antes que te comam as palavras
embarquemos na ruína das utopias
ratos em busca de migalhas,
futéis metas diárias
mantêm-nos solidificados na estupidez
ódio com justificação

mutilação

picando o que resta dos orgãos
antes de falhar

Asfixia

Floresce
uma espécie de silêncio
cercado por montanhas
intransitáveis e inatingíveis
enrolando areia
sob os pés
numa monotonia repetitiva
de uma mesma infinita paisagem
zunindo como electricidade
até se perder no som
sempre presente
no espaço alongado
esticado como um ventre
de um qualquer gigante
de pedra castanha
todos os tons todos os tamanhos
ocasionalmente
subindo em espiral e enrodilhando-se
uma melodia,
como hera enforcando
o zunido do silêncio

o sufocar
até no aperto da morte
o sufocar
até no aperto da morte
até no aperto da morte
o sufocar

ritmo de passos
sobre cascalho
variando
4X4
2X2
dançando como serpentes hipnotizadas
estão longas togas brancas
ao sabor de uma caprichosa subtil brisa,
pontualmente irrompem
aldeias de madeira e
cidades esculpidas na pedra
divinas marcadas como
berços civilizacionais
até agora ignorantes
do desperdício da arrogância da futilidade
dos últimos milénios
contabilizados de uma
qualquer semelhante e anónima cidade
um deserto não temerário
face à prepotência
oferece apenas o seu dorso
aos humildes
engolindo os vestígios
de qualquer caravana anterior
ou
rolando sobre si
esmaga esporadicamente sedentários monumentos
reside
no olho das tempestades
uma calma digestiva enganadora
como que uma miragem
sustentada por desejos febris
um portentoso imbatível desgastante
oceano,
uma movida de pequenas e fracas formas de grão
movimentando-se em acusação
à passagem das eternidades

ampulheta em mão de deus

Cadências

O delírio de quem
se afoga em néctar
numa fumarenta e
bafienta catacumba
onde caoticamente
se espalham
voluptuosos corpos

carnes de seda
arrebitadas pestanas
lábios de sangue
seios empertigados:
um completo conjunto
recostado na madeira
castanha do balcão
como o felino
que alivia a sede
girando a cabeça
percorre sem ver
um olhar indiferente,
estremece o observado,
prolonga-se num silvo
o som de cordas
o som de sopro
às vezes sussurro
às vezes grito de banshee
marca no espaço
a percussão,
o movimento de tudo
como se rotação
pés apoiam as
mãos que carregam,
saltita a bandeja
no chão xadrez,
coberta uma tez escura
por fatos recortados
generosas golas
padrões verticais
encontram em lábios
carnudos o centro
do ser e é a música
tocando ou não
o som do universo
da etnia e cultura
que misturam sofrimento carnal
com ligeireza espiritual
o mundanismo mais baixo
com a mais altiva espontaneidade
tem a força das entranhas da terra
tem a liberdade de poder lutar
contra escorreitas mas pérfidas amarras
tem a soltura da musicalidade
nos passos nas ancas na voz nas mãos nos pulmões no berço
de toda a humanidade
criação criatividade
e a música, sempre ela
nunca se prendendo
viajando como se
o tempo e o espaço
barreiras não fossem
água nos canos
desfaz liquefaz refaz constrói configura transfigura imigra transmigra
fogo agua céu terra
vai subindo num crescendo
serpenteia chilreia
como se dentro estivessem
passados e futuros
impusesse uma construção
de potencial imensurável incontável
ameaçando explodir
numa dança colectiva
como estrelas no firmamento como nuvens no céu como mortos na terra

vão chovendo
destroços estilhaços bocados ruínas restos
cada vez mais freneticamente
o frenesi rodopia
como furacão da criação da evolução da extinção
leva tudo consigo
absorve interioriza come devora
até não restar nada
nem vazio
nem ausência de vazio
apenas uma gigantesca massa bailante,
ser a unidade
e de repente num momento menos que um momento em que tudo foi suspenso

TUDO PÁRA!

e desfaz-se então tudo
tudo evapora tudo cai tudo quebra
dum modo amoroso e violento
e tudo retorna a um novo lugar a uma nova forma
música prossegue
e acontece algo diferente ou acontece a mesma coisa ou nada acontece
ninguém se apercebe ninguém se aperceberá
porque
acorrentados
olhos cerrados
ainda que se movimentem
ainda que contemplem
mas sem ver nunca
quando tudo muda
assim como essa eternidade
não começa
inicia-se e não finda
rebenta
finalmente
o relógio empurra o sol
gruta dentro
finalmente
o coito termina
finalmente
já ninguém existe
a não ser o quotidiano
a não ser o banal
a não ser o matutino
a não ser o laboral
a não ser o mundo lá fora
e uma casa vazia
de paredes sujas
copos vazios
beatas abandonadas
e a promessa de
ser embalado numa noite
em que tudo
se estende
se distende
se estica
sob o comando
duma improvisada melodia

Devagar

No campo aberto
sob um céu mortificante
domina a cultura
do jogo de ameaçadores
estátuas ao longo da visão
como soldados feridos
numa qualquer batalha,
sobrevoados por negras aves
cobiçados por abutres,
interrompida monotonia
por longínquas e indecifráveis
notas de qualquer escala urbana
ribombando ao longo de vales
semelhante ao cantar onírico
acompanhante da vítima

ao longo do dia
imiscuindo-se
enevoando-se
o tom de realidade,
tão pesado o tempo
que congela e
os minutos adquirem
o estigma da sonolenta
e mecânica repetição
o invisível toma-se
por falso e o
visível assume a
indefinição duma recordação
na qual se medita,
caracterizada por tão frágeis
nuances que apenas alguns
lhes assentam certezas
ainda abaladas pela dúvida entre
o absolutismo da imutabilidade
e a possibilidade da perdição

perde-se o sentido
da carne
do sangue
do prazo
perde-se inexistindo
algo confrontado com a extinção,
transforma-se e
recolhe-se para
um remoto conceito
residente não-aqui,
a erva cresce
flores desabrocham
montanhas imóveis
animais corredores
senhores do som
o chão sob si mantem-se,
pilosidades progridem
resistências persistem
como a queda virgem e
o beijo de abertura,
perece apenas a forma
disforme e difusa
duma ilha na mente
ou lembrança
ou ideia
absorvida ou concebida,
pertence ao mutante
decora pele,
onde céleres são as nuvens
a mais firme composição
assente na mais certa firmeza
o campo que não gira
o solo que não é infértil
o corpo que não é decrépito
a beatitude suspensa
da tarde de verão que
morre no pestanejar

sonos

Aleatórios amontoados aleatórios

de camas e de cruzes
de nudez e desgrenho
a paredes brancas
janelas pregadas
e mirrados animais,
o ruído da alegria
sobrevive longe
perdido nos gemidos
cheirando a fármacos
e entre o infernal calor
dum quarto sem saída
de histórias e trocas
das marcas de guerra
lá onde olhos descansam
com nocturnas pálpebras
lá onde bocas se abrem
como peixes no anzol
lá onde se deita de dormir
lá onde se deita de abrir
lá onde se deixa desistir
lá onde se deita fora
lá onde se deita ao lado
chora
lá onde olhos brilhantes
olham para lá do baço
através dos restos dos corpos
das almas mutiladas
aquém e alem
duma fronteira,
dão as costas à certeza
do dia errado para breve
do virar errado na esquina breve
do incorporar a tenacidade
de um equador coslógico
das somas e valores
do deitar do deixar do comprar do ingerir
e não afundar a cabeça
na agua inquisidora do poço
biológico ao sufoco
às chamas no respirar
à febre cerebral
à puta da loucura
alastrar pelo motor
percorrer pelos veios
infectar cada artéria
alastrar como a peste de cor
de mão em mão
será um acordar sempre tardio
ou um não acordar de todo
ou um acordar para um frio
nublado inverno
ou um acordar sonâmbulo
ou um adormecer cataléptico
ou um acordar dormente
ou um dormir mais um pouco?
até um despertar abrupto
sufocante
esmagador
do dormir mais

Amanhã

Há recipientes que se perdem nos anos
e se reencontram na velhice das ruas
esbarra-se em lugares extintos
e no som da novidade
aparece uma crueza solta
alimento de dolorosas honestidades
que se infiltram nas conversas,
morreu a vergonha das feridas
que se atiram a público
(des)orgulhosamente, descomprometidamente
e antes dum veredicto
usam-se deformidades como insígnias

celebremos mais um dia
em que vencemos a morte
mais um dia de vida
na corrupção do corpo
que semeia partes nos meses
como rasto de decadência humana
ex-alimentador de vaidades,
os próximos banquetear-se-ão
desses excertos pré-mortem
os cabelos derrotados
os dentes falidos
as carnes flácidas
as rugosidades invasoras

celebremos mais um dia
em que vencemos a morte,
rendamo-nos à inevitabilidade
da extinção
com a graça lenta do executado
sacrificando a vida pela causa
confrontemos os invasores psicológicos
com o orgulho de cicatrizes
ditadas por nós
cicatrizes nascidas do escárnio
pela juventude da plasticidade
pela arte do desfile
pela auto-abjecção à perfeição

celebremos mais um dia
em que vencemos a morte
e ergamos o nosso legado
como se um cálice
pelos continentes
pelos mares
contra a gente de consumo-imediato
contra as pessoas do objecto
contra as pessoas da bondade
contra as pessoas da beldade

celebremos pois mais um dia
em que vencemos a morte
e repousemos na beatitude
no descanso na fealdade
que rende a calma do distanciamento
e exponhamos o negro da alma
ao mundo
nas caretas que ficam por mostrar
nos motes que ficam por gritar
nos locais que ficam por queimar
e nas heranças orgânicas
e de sofrimento interior
e sangue rijo
que ficam por conceber

celebremos mais um dia
em que vencemos a morte
a superar as limitações do mundo
para o qual fomos atirados,
corramos despidos e nus
empunhando carne mutilada como flores
e corações dilacerados como armas

a vida esgota-se e escasseia
em secretismos

LIBERDADE aos segredos dos corpos nos outros corpos

LIBERDADE dancem juvenilmente o excesso e o defeito nas camas de terra

LIBERDADE todas horas todos os minutos todos os segundos

LIBERDADE na celebração
LIBERDADE de quem mais um dia
LIBERDADE venceu a morte

O sopro

Sou
um incurável romântico
apaixonado pelo fracasso,
contra-o-mundo é
o fuel que alimenta o motor

Sou
um junkie da contrariedade na
comunidade da positivação
nas olimpíadas do consumo,
deambulando por grandiosas ruas
a promover uma ermita leitura
das fachadas e do néon
encarnando papeis que só
poderiam pertencer ao mundo
da fantasia, vou recortando
miniaturas em quadrados e excertos
de locais, momentos e seus habitantes
para compor um livro de retratos
que será o condutor
feliz e desajustadamente
pelo meio de uma inglória e
anónima forma de vida
que se vai revendo
em amor feito destruição,
na liberdade a nascer das
cinzas da norma,
no ofensivo qual elefante
que espezinha os ovos
sobre os quais
povos caminharam cuidadosamente
arrastando, oferecendo um rasto
de sangue e lágrimas
cicatrizes rasgadas na pele
grossa, mas pele
rompida por manadas
de pessoas que defendem
o inimigo como legiões
de César, bonapartianos
e SS fizeram outrora

Sou
o espião que trava guerras
pela sabotagem
e faz cair de joelhos
nações poderosas
até ao absoluto descontrole

Sou
o sopro inspirador
que se ergue de
lábios-morango
e que, assimilando partículas
enormece até ser
um ávido e esfomeado
furacão-tornado
varredor de símbolos
megalómanos e bélicos

Sou
o tão sensual excêntrico
que atrai para si
beleza e juventude
ao serviço da rebeldia
e num misto de dança e guerra
cativa e reúne as
restantes virtudes até
um gigantesco oceano de
anarquia corporal compor
milhões de humanos

Sou
o prosaico orador
num místico banquete
de poder avassalador
perdido na comida e bebida
e nas mais belas palavras trocadas
na festa feita revolução e amor
que terão as mais
libertinárias consequências
sobre a gente, até
dormirmos sob a luz das chamas
que florescem sobre
o peso dos passados

Sou
apenas um numa guerrilha elegante e
sexual que ergue armas
como segura o órgão
e deixa o cheiro a fluidos
por onde passa até a
mensagem carnal se tornar a
própria essência da vida,
sem espaço para nada mais

Sou
o que se rende a estas demências,
antes feliz na morte e
habitar um país de inexistências
do que ser incapacitado pelas básicas
oferendas corruptoras
da busca pelo inalcançável