O terramoto

A cidade
soerguida de um terramoto
mescla de destroços e
imponente história milenar
renasceu à lei do chicote
para um novo estilo burguês,
colecciona arquétipos e
arquitectura decorados a
sujidade que vai da
merda de pombos ao
mijo dos bêbados

há, neste universo de Fellini
lugar para:
putas clássicas que
empurram abóbadas com
as pesadas coxas cobertas por
semi-arruinadas meias de rede,
o chulo que espia com o olho e
habita esquinas longe de
olhares atreitos,
jovens propositadamente boémios
aspirantes a artistas que
caminham de costas curvadas, nas
estreitas ruas, dobradas sob
o peso da ambição sem o
suporte da vontade,
os opressores polícias que
decoram a paisagem com
monumentais estômagos erguidos
a bifanas e imperiais e
procuram na autoridade a
validação para a sua existência,
os ranhosos e remelosos
arrumadores de carros com
a imóvel mão estendida,
os dealers a espalhar
segredos de estupefacientes aos
ouvidos dos que
aceleram o passo,
os donos e frequentadores dos
cafés e tabernas que outrora
ergueram os punhos em exigência
de razoáveis impossibilidades e
que hoje apenas servem de apoio à
cabeça que somente ergue a voz
para apregoar clubismos,
a população flutuante entalada
nos transportes ou aprisionada
nos automóveis que correm para
chegar e partir com o ritmo da
procissão e a pressa dos moribundos,
os velhos esquecidos e tão à
beira da morte quanto as suas
casas à beira do colapso que
encetam conversas apenas de
janela em janela
e as fachadas antigas de
drogarias, tascas, pastelarias
prontos-a-vestir e restaurantes
pintados a néon e abandono vão
num misto de mágoa e dor
coexistindo com o futurístico
planeta das multinacionais de
roupa, comida e gadgets que
engolem humanos e cospem
autómatos neo-liberais
e assim se vão enterrando
mil anos de história e
histórias, personalidades e
pessoas, lojas, calçadas,
eléctricos, culturas sob
gigantes financeiros que só
nasceram para criar uma
estúpida uniformidade,
e assim se vai vivendo de
olhos vendados para as nossas
coisas que não são futebol,
e assim vai crescendo a
cidade da fachada turística e
das podres entranhas globalizadas,
e assim nasce uma outra Lisboa
do design, da nova arquitectura,
dos shoppings, do chiado e
do bairro alto, do sector terciário
e dos empregados de mesa e de balcão,
dos desempregados licenciados e
dos artistas que criam porque podem
mesmo que não tenham nada a dizer,
e das decisões governamentais que
deixam o povo passivo
e assim tudo vai piorando e
Lisboa é o bairro alto de noite,
o chiado de dia e o benfica,
o sporting e o belenenses, e
Lisboa é só mais um símbolo de
status para os turistas,
para os trabalhadores,
para o lazer e
Lisboa é mais uma coisa
para usar como o carro,
a roupa e os penteados e
Lisboa está a morrer mas
está viva enquanto se
puder usá-la nas conversas
e no ter lá ido

Lisboa, a cidade que sobreviveu ao terramoto

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