A evolução

Em dias de luxúria
nada sobrava
para depois do anoitecer,
descíamos a cidade
subíamos ao céu
com a loucura nos olhos
palavras de liberdade
nos lábios, e as
mãos dadas em pureza
nascidas antes do pecado
e do tempo, nossas eram
as mãos divinas que
connosco engrandecem
desamarram-se e escarnecem
a devoção

a morte não chegará porque
nascemos depois dela,
já mortos, a respirar
ar morto, a comer cadáveres
a foder figuras de pedra e
a lição que não aprendemos?
que o amor não se come,
não se bebe, não se guarda,
saliva-se, ejacula-se e
regurgita-se
desde que o primeiro
aspirou a viver no tempo eterno
e não além dele, tudo
está tão morto, para
além de qualquer assassínio que
se possa cometer, para além de
qualquer sangue que se possa provar
para além de qualquer honra que
se possa salvar

o que resta do planeta moribundo são
hienas, numa disputa de riso com
dentes manchados de fezes
deus odeia-nos porque
não embarcamos em brincadeiras, toques
carícias, sorrisos ou fecundação
dedicando-nos a uma vida de
cães de guarda num museu
onde reina a imaculação e
o balofo respeito

deus odeia-nos porque
somos de cera e idolatramos
o plástico, pregamos a ordem e
impingimos amor fascista
deus odeia-nos,
macacos prepotentes

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