Limbos

Longo branco frio
o corredor
decorado a doença nos
lados e de cheiro cortante
que se cola como
beijos distantes
um comprido corredor
feito de futuro certo
para data incógnita
onde ecoa à distância
a promessa do chamamento
um longo corredor
cujo fim se prolonga
para além de qualquer fim
para além da vista
para além do movimento
um branco estranho corredor
de negro abafado e húmido
com portas que se fecham
sobre nós e nos despojam
do céu no qual se contempla
a utopia
um corredor de bafo frio
que congela a humanidade
um corredor
longo túnel
sem luz ao fim
sem fim sem luz
que decai
descende
desce
onde se assiste à distância
durante o que são milénios
ao escorregar de corpos
despidos e abandonados
(cinzas que cheiram a incenso)
solitários e quedados
para a boca do demónio
um corredor onde se observa
a partir do cosmos ao
caminhar de seres ao
som de melodias ditadas por
correntes e grilhões ao
caminhar de seres que
arrastam os pés exercendo
um burburinho constante
ao caminhar de seres
entoando a derrota antecipada
às mãos do destino
ao caminhar de seres que
sonham com a luz que é
vista à transparência
ao caminhar de seres
invólucros quebradiços
ao caminhar de seres que
são violentamente escorraçados
de sob uma aconchegante
manta uterina para
um branco que cega
uma paz morta
uma falta que ensurdece
um frio de gretar
um perfume de podre
um desconhecido desamparo
o caminhar de seres
com estrelas nos olhos
magia nos lábios e
suspensos por fantasia
seres que caminham
ainda que se deitem
ergam
sonhem
construam
destruam
amem
odeiem
seres que caminham
ao longo de um
comprido
branco
frio
corredor

Secreções

Amar a besta e
parir um pai espiritual:
judas
a traição intrínseca,
no próprio dia foi escrita
uma ópera sobre o mundo
tomei como casa
um qualquer lugar
entoando incessantemente
o que julgava sabedoria
e soava a loucura
cansado de oferecer
pérolas a porcos
sem outro uso para ela
dei a outra face
desisti de casa e
percorri bar em bar
atrás da luz humana
sabendo que não existia
nada, a não ser o único
acto romântico que
poderá ter lugar neste mundo:
depositar esperma

foi a noite mais plena
que existiu
deus segredou o que
eu já sabia:
o nosso estatuto
de intocáveis.
nascemos no micro-segundo
que existe na fricção
entre os corpos e
visitamos o coma,
espaço entre orgasmos

Ùteros

Naquela noite
era o cheiro quente do sangue
que nos inundava os pulmões
e uma devota paixão
pela destruição
daí em diante
foi deslizar por dentro da capital,
masturbação pelo fogo
e passar os dedos pelas ruínas,
saboreando com a ponta da língua
coitos interrompidos e
coitos malogrados

foram tantas as visões
realizadas a cinzento e tijolo
recortadas contra o céu aberto
foi por entre as coxas
no meio da salivação e penetração
que a língua fez a
dança viva da serpente e
rebentando de paixão por nós
– laranja-fogo e encarnado-maléfico –
esculpiu-se no universo
um nosso lugar
de explícita finitude mas
os primatas que somos
existem aquém do desfrutar
o mais mundano dos prazeres
livres da culpabilidade e
condenação judaico-cristã

a madeira do teu deus apodreceu
e alimenta a minha chama
onde cabem todos os
cruzados e missionários.
a bacia do planeta
rebela-se contra nós,
suas carraças que
sugam a alma e
carpem
assassinos do ego

salvação é morrer na vida
apressemo-nos para que
ainda haja tempo de renascer
antes de sonhar o útero,
há que aprender a sonhar

Alquimia

Ruído:
o nosso legado

fomos em busca de novos mundos
fartos deste, tão gasto onde
todas as aventuras cabem na
improbabilidade de uma equação,
aspirámos ao mistério
escondido no ventre terrestre
seguimos a estrada
até ao horizonte e
o sol deixou a lua no seu lugar,
soprava pela madrugada
o quente bafo do deserto
a promessa da eternidade
a possibilidade que
transcende a compreensão
tomámos o nosso lugar no banquete
(um de muitos)
ode á vida
escrita a álcool e narcóticos
e palavras de amor dos que
regam as convenções que
os muros da linguagem e
da propriedade absorvem
com gasolina,
bebendo uns dos outros
entregando-nos à multidão
sem aprender ou ensinar:

EX-PLO-DINDO

uns dentro de todos os outros
querendo-nos tanto
não há terra que nos detenha
a cada gole
a cada sorver
crescemos para o céu
agigantando-nos sobre a matéria
que aguarda o descalabro
mestres próprios
com revoluções nas pontas dos dedos
procurando o toque dos que faltam
e tantas são as ausências, mas
não retornaremos às
gaiolas douradas
que nos aguardam
não retornaremos
jamais

Traição

Guardei para ti
este dia de traição

tu que reconheces a
impossibilidade da
libertação sem dor
fartos de viver
em dormência
arrancámos os grilhões
que nos amarram à terra,
deus da superfície
cabelo e dentes como
o dourado boi de Sodoma
lançámo-nos forte
contra tudo
de ponta a ponta
pelos bordeis,
da casa de putas
às putas de casa
e fazemos questão de
coleccionar todas as
histórias, cicatrizes e
doenças, retalhos de
uma manta amorosa decadente
sempre fomos traças
atraídas pelo fogo
da obscuridade
perdidos na estética
incrédulos da beleza
não parida pelo sofrimento
ou brotada do suor
e toda a que nos rodeia
é alheia, anterior
ao nosso nascimento
impossível para nós
o seu sabor, verdadeiramente
criámos assim
uma nossa tribo
com rituais nossos
segurança para abandonar
o útero em busca das
cinzas feitas pelas
chamas infernais

O resto de nada

O sopro nocturno
inflama palavras vivas
cor de néon
rua dentro de lábios para lábios
num toque vermelho
num toque húmido
de lábios para ouvidos
pelo bafo quente
pelo bafo seco
do segredar daqueles
que se conseguiram perder
onde todos procuram
encontrar-se

e aceleramos
arrastando as luzes
mas sempre mestres
do passar das horas
atravessando mil
novos conhecimentos
a quem dedicamos
a inconsciência do
mundo novo que nasce
quando o sol morre
e morre quando
o sol nasce
e tantas eras infindáveis
fomos nesse escuro de
sonhos voadores em que
conseguimos tocar o intocável
o jovem, novo e puro
agarrar, prender, mastigar
cuspir para o círculo
desenhado pelos corpos
deitados ao chão, tão
próximos sem no entanto
se chegarem a tocar
e essa moradia temporária
foi uma floresta encantada
de tantos minutos
o edifício foi árvore
nós infantes senhores
da floresta, em corridas
rebolando para dentro dela
fomos magia até a
luz cair sobre todos
e sobre todos os sonhos,
lhes rasgar o ventre
puxar as tripas e
sobrar apenas decadência que
junto com o vómito da mágoa
desliza calçada abaixo
já de dia para a sarjeta eis que
o mundo dos escravos e
o mundo dos mestres
descobriu-se
e de nós?

de nós sobrou apenas
ausência e fim

Supernova

Dançámos por esse mundo fora
dançámos por entre o lixo
os cadáveres espalhados no chão
e os que caminham
e quando parámos de dançar
vimos o que nos rodeava
fechámos os olhos
apertámo-nos mais um contra o outro
e dançámos por esse mundo fora
dançámos por mil auroras
dançámos por mil horas e lugares
dançámos até afugentar a morte
até afugentar o medo
dançámos à vista de todos
dançámos em segredo
e quando parámos de dançar
olhámos à nossa volta
mas ainda não era suficiente
por isso dançámos por esse mundo fora
sonhámos, dançámos e nunca acordámos
por tudo e todos passámos
por esse mundo fora
por entre o crepúsculo
e o amor-dos-homens
por entre mães com o fruto no ventre
o riso das crianças felizes
e quando parámos de dançar
e olhámos em nosso redor
dissemos finalmente “sim, é isto”
era mais do que o suficiente
por isso dançámos
dançámos pelo mundo dentro
e ainda hoje dançamos
pelo mundo dentro
e dançaremos