Desamor

A história é dos reis
não dos homens
as homenagens são de pedra
não de vida
a arte é das paredes
não tem poesia
a cultura é dos mercados
não tem verdade

e o amor?
o amor é feito de sangue e poesia
mijar contra as paredes
grandes furtos, grandiosos homicídios
declamar a raiva que brota das cinzas
de paixões agora acorrentadas
de paixões que sonham e desejam
anseiam, esperam e doem
pelo caos que só reside
no espaço entre os edifícios
no espaço entre os carros
no espaço entre as ruas
e entre dentes

e o amor?
o amor é que tem de alimentar
essa flor de lótus que brota
do caos que nasce da lama e
é a mais espontânea e pura
de todas as formas de existência

e o amor?
o amor escreve poemas
através de actos,
escreve poemas quando
os jovens correm em grupos pelas ruas
e perturbam a ordem
escreve poemas nas guitarras
escreve poemas na verdade que digo
que dizes, que alguns dizem mas
sempre em número insuficiente para a dizer,
na verdade que rompe a educação
e as maneiras e destrói relações
assentes em tradicionalismos
a verdade que vem agredir os que
mostram o que não têm ou servir
de exemplo
queremos ser odiados:
odeiem-nos!
o amor escreve poemas quando
se quebram as leis e convenções
o amor escreveu poemas na história
do Maio de 68, da comuna de paris
da guerra civil espanhola
o amor escreverá novos poemas
de novas formas por nova gente
o amor escreverá poemas Zen
quando a pedra que somos
cair no charco e agitar as águas próximas
e essa história repetir-se-á
até o charco crescer, tornar-se um oceano e
afogar o topo da pirâmide
o amor vive para além da
geometria e da matemática

Futurismo

O futuro é
uma natureza morta
de pinceladas colectivas,
ódios e
corpos esventrados
do exterior para dentro
para que possam caminhar
por entre a fina
passagem dos mastins
bárbaros em pele de cordeiro,
líder de mão amiga
como Brutus nas costas de César e
o santo Graal é uma sangria

procurando um
auto de fé onde
possa fazer lenha dos
manuais e tabuadas

somos contra a vida
porque somos pela vida
somos contra a vida
porque somos pela vida
somos contra a vida
corremos contra a vida
com asas cortantes
somos contra a vida
não um palco com actores
somos contra a vida
ferida aberta de
cheiro fétido e
palavras amargas
somos contra a vida

destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir destruir

o futuro é
uma natureza morta
o futuro é
natureza de plástico
vida de plástico
crianças catequistas
sentadas e comportadas porque
as crianças são para
ser vistas, não ouvidas,
o futuro é
um louco sem gritos
drogas estatais
liberdade a metro
controlada e desinfectada
o futuro é
uma natureza morta
3000 anos de
espírito humano embalado
numa lata de sardinhas
em saldo
o futuro é
uma natureza morta:
ponham-no num museu

A caça

Num requebrado
ritmo sem caminho,
felino das esquinas
lobo e cobra dos mundos
sem correntes sem jaulas
a liberdade é cruel e
também experimenta
o silêncio, apesar
dos incessantes
burburinhos e luzes
nunca com espaço
sem nada seu ou céu
persegue mas não segue
duvida da própria existência
onírica e dolorosa

mas sempre de uma
bruma para além de previsão
cheia de tempo dos tempos
acelerado ou estagnado
as viagens pelos reinos
mais brilhantes e afortunados
fomentam o ódio pelo
fosso entre qualidades
plásticas desumanas

vomitar sangue de
feridas escancaradas
sem ambicionar a
cicatrização, dar as
costas aos inimigos e
deixar para trás
caçadores com quem
não importa competir, mas
a honra manda
minar a ponte que
conduz ao território
da caça

Monte-Cristo

Revolução sem sangue
é amor sem dor
foda sem esperma
a poesia na violência
o romance nos homicídios
em massa, seleccionados
as chamas no poder
a desordem no busto
da autoridade

abrir-me-iam o caminho
do paraíso
para libertar a humanidade
teria de a tomar inimiga,
pagar o preço de saber
a arte da guerra e
batalhar séculos de
judáico-cristianismo,
autoridade, leis e
propriedade, e oferecer
nada em troca:
apenas a morte da questão

sem o alívio da resposta.
podia-se, no entanto
viver mais nesse momento
do que jamais toda uma
raça viveu
escapar
enriquecer
e vingar
ao bom velho estilo do
Conde de Monte Cristo

Desenraizado

Prisioneiras
as mais belas pessoas
quando conquistaram a
liberdade pela violência
desfilaram pela terra
deixando um rasto de
cheiro a sexo
atiraram palavras-beijo:
insurreição                                                          caos                                                               insegurança

sem a âncora do tempo
espalham o amor pelos céus,
professam a liberdade
assassinando o que se conhece
até sobrar apenas o desconhecido
o incalculável
o imprevisível
o sem-base
obrigando tudo e todos
a cortejar a vida.

reinvenção de nós
projectar edifícios
sem alicerces
iniciar casas pelo tecto
caminhar sobre água
demitir Jesus

Fim

Uma selva de linhas
copula com sons,
gente que se perde
em autoritárias
cores e formas
aspiram o céu
sem amar a terra
vasculhamos cinzento
e vendemos almas
pela prioridade
de prestar homenagem
a vidas petrificadas

escravizados
bustos de carneiro
em corpos de formiga
escravizados
por olhos junkies
de virtualidades
alienados
dos sentidos
alienados
sem sentido
alienados
em sentido
cansados
na linha de montagem
descansados
na desmontagem

com infindável sede
do circo romano
com infindável sede
de prestar vassalagem
a um Nero pós-moderno
fragmentado em
mil ocas ideologias
de tão belas palavras,
corridas desenfreadas
para o futuro:

f.i.m.

lugar nenhum
sem desejo

Excremento

Povos que erguem cidades
fundadas em sofrimento,
prestando vassalagem a ídolos
de corpos de plástico em
ideias mortas
atiram as vidas aos céus
e as culpas
devolvem-nas à terra
terra
outrora percorrida
por heróicos antepassados
que lhe conferiram
uma camada de sangue
hoje desonrada
na falência do
espírito guerreiro
dos genes seculares
dos desertos atravessados,
o câmbio foi feito
por metais e artifícios
que espécie
que quando termina
nada devolve aos deuses,
devora essências
e existências sem
lhe tomar o gosto:
caçadores efeminados
decrépitos imóveis
almas gastas em
corpos de infantes

não se nega a morte
quando se perdeu a vida
faltam os braços para
arrancar a enormidade que
o mundo encerra,
abrir as pernas da virgindade
e pernoitar dentro
só resta o cultivo da morte
e a morte dos inquebráveis:
raça indigna
excremento dos avós